Em 22 de setembro de 2026, a 5ª Vara Criminal de Belo Horizonte absolveu o torcedor argentino Nahuel Jeremias Maldonado, acusado de racismo durante Cruzeiro e Boca Juniors, no Mineirão. O juiz José Romualdo Duarte Mendes aplicou o artigo 386, inciso VII, do Código de Processo Penal: prova insuficiente. Na mesma terça-feira, em Sevilha, a Audiência Provincial de Sevilha adiou pela segunda vez o julgamento do torcedor acusado de insultar Vinicius Junior, agora para 13 de maio de 2027.

O que a absolvição diz, e o que não diz

O inciso VII do artigo 386 trata de um cenário específico: não há prova suficiente para condenar. Ele não é uma declaração de inocência. O juiz não afirmou que os gestos não aconteceram. Afirmou que a acusação não provou o conteúdo discriminatório no padrão que uma condenação criminal exige.

A distinção importa porque o noticiário costuma comprimir as duas coisas numa frase só. Absolver por falta de prova é uma decisão sobre o que foi levado ao processo, não sobre o que ocorreu no estádio.

A prova que não se fechou

Um segurança disse ter visto os gestos e não soube confirmar o conteúdo deles. Os policiais ouvidos não presenciaram o episódio. A defesa sustentou que as mãos levadas às orelhas eram o gesto do "Topo Gigio", associado a Juan Román Riquelme e usado pela torcida do Boca.

Essa é a estrutura de quase todo processo de racismo em estádio. O episódio dura segundos, acontece no meio de milhares de pessoas e depende de testemunho. O que sobra é a palavra de quem estava perto contra a interpretação de quem foi acusado.

Em Sevilha, o segundo adiamento

O caso espanhol tem data e minuto. Os fatos são de 21 de outubro de 2023, entre os minutos 83 e 86 de Sevilla e Real Madrid, no setor Gol Norte do estádio Ramón Sánchez-Pizjuán. A promotoria pede 1 ano e 9 meses de prisão por crime contra a integridade moral.

O julgamento estava marcado para 22 de setembro. Foi adiado na manhã daquele dia para 13 de maio de 2027, e é o segundo adiamento: o primeiro havia levado o caso de abril de 2026 para setembro. Não houve sentença e o julgamento não chegou a acontecer. Entre o episódio no estádio e a nova data marcada vão três anos e seis meses.

Quando vem, vem anos depois

A Espanha já condenou por esse tipo de crime. Em junho de 2024, três torcedores do Valencia pegaram oito meses de prisão por insultos racistas a Vinicius Junior. Em 2025, cinco torcedores do Valladolid tiveram penas confirmadas, por ataques de dezembro de 2022.

São condenações reais, e nenhuma delas chegou perto do calendário do episódio. O tempo é o dado que os dois casos desta terça-feira têm em comum. Num deles, a prova não se sustentou depois de cinco meses. No outro, o processo acumulou três anos e meio sem que a primeira audiência começasse.

Fontes: Notícia Preta e Metrópoles, de 22 de setembro de 2026, sobre a absolvição em Belo Horizonte; Sevilla Actualidad e ABC, de 22 de setembro de 2026, sobre o adiamento em Sevilha. Foto: Sudhertzen, via Wikimedia Commons.