A Autoridade de Gestão de Fronteiras da África do Sul informou ao parlamento que 89.936 pessoas foram repatriadas pelos postos de fronteira do país até 7 de agosto de 2026.

Os malauianos são o maior grupo, seguidos por zimbabuanos e moçambicanos. E boa parte dessas pessoas não saiu por ordem judicial. Saiu fugindo dos ataques xenófobos que se espalharam pelo país neste ano, num êxodo que a estatística oficial registra como repatriação.

A conta não fechou

A operação custou cerca de 292 milhões de rands, algo em torno de 18 milhões de dólares. O orçamento anual do Departamento do Interior para deportações era de 60 milhões de rands.

Gastou-se mais de cinco vezes o previsto. O transporte respondeu pela maior parte da despesa.

Quem paga pela decisão de quem

O governo sul-africano acionou o Departamento de Relações Internacionais e Cooperação, o Dirco, para pedir formalmente que Malawi, Nigéria e Etiópia reembolsem o custo de mandar seus cidadãos de volta.

A lógica do pedido merece ser lida devagar. A decisão de deportar foi da África do Sul. O orçamento subdimensionado era da África do Sul. A cobrança, porém, vai para os países de origem.

É uma inversão de responsabilidade travestida de acerto de contas. O país mais rico da região pede que três países mais pobres financiem a própria expulsão de seus filhos.

O que isso diz sobre a fronteira que a gente não discute

No Brasil, a conversa sobre migração africana quase não existe fora do noticiário de tragédia. Quando existe, trata o continente como origem de um problema, nunca como um lugar onde 89 mil vidas foram movidas em oito meses por decisão administrativa.

Amos Wilson escreveu sobre a dominação que se reproduz depois que o colonizador vai embora, quando a estrutura econômica permanece e ensina o dominado a cobrar do próprio irmão. Uma fronteira entre africanos que funciona com a mesma gramática da fronteira colonial não é soberania. É herança.

Fontes: Sunday Times, The Citizen, AllAfrica e Nyasa Times, 12 de agosto de 2026.