Um ensaio publicado em julho na Africa Is a Country, assinado por Sarah Setlaelo, chama Nelson Mandela de o último rei filósofo da África. O argumento é que a contribuição dele ao mundo das ideias não foi a oratória nem a teoria, e sim o pragmatismo: a ausência de purismo ideológico.

Se o pragmatismo deu tão certo, por que a África do Sul está hoje expulsando africanos?

A dívida com a vizinhança

O Congresso Nacional Africano, partido de Mandela, ficou proibido dentro do próprio país por trinta anos, de abril de 1960, depois do massacre de Sharpeville, até 2 de fevereiro de 1990.

Nesse período, quem abrigou os sul-africanos foram os vizinhos. A Zâmbia sediou o movimento no exílio, em Lusaka, de 1963 a 1994. A África do Sul livre existe, em parte, porque os países em volta bancaram.

O que acontece agora

Grupos como a Operation Dudula e o March and March promovem protestos, exigem documento de identidade de pessoas na rua e estipulam prazos informais para a saída forçada de imigrantes das comunidades. Deram 30 de junho como data limite para indocumentados deixarem o país. No dia, foram 120 protestos.

A Human Rights Watch documentou, em abril e maio de 2026, ataques de vigilantes contra estrangeiros africanos e asiáticos: pelo menos nove moçambicanos mortos, casas de ao menos 51 incendiadas e saqueadas. A organização registrou que houve pouca ou nenhuma resposta da polícia.

Desde 1º de janeiro, passaram de 40 mil as detenções de estrangeiros. O desemprego oficial está em 32,7% e chega a quase 43% quando se contam os que desistiram de procurar trabalho.

O presidente

Cyril Ramaphosa, do mesmo partido de Mandela, começou como fundador e secretário-geral do maior sindicato de mineiros do país, liderando greves contra a exploração no apartheid.

Hoje condena a xenofobia em público e afirma que aplicar lei de imigração é papel do Estado, e apenas dele. Ao mesmo tempo endurece a deportação, governa em coalizão com partidos anti-imigração e tem eleição local em novembro.

A diferença entre o governo Mandela e o de agora não é caráter. É projeto. O homem que organizou trabalhadores contra a exploração hoje preside o país que detém milhares desses trabalhadores, enquanto terceiros matam estrangeiros e a polícia olha para o lado.

Pragmatismo de quem, e para quem?

Fontes: Africa Is a Country, Human Rights Watch, Al Jazeera, Statistics South Africa e Daily Maverick, 2026.