Alice Ball tinha 23 anos quando fez o remédio da hanseníase funcionar. O óleo da semente de chaulmoogra já era o único tratamento conhecido, e não servia: bebido, dava enjoo; injetado, empolava a pele. O óleo não se dissolve em água, e por isso o corpo não absorvia.

Ela separou os ácidos graxos do óleo e os transformou em ésteres etílicos, que se misturam à água e podem ser injetados. Levou menos de um ano, trabalhando fora do horário de aula.

Em 1915 ela havia se tornado a primeira mulher e a primeira pessoa negra a virar mestre no College of Hawaii, e foi contratada como professora ali mesmo.

O que isso mudou tem endereço

Quem tinha hanseníase no Havaí era mandado para o isolamento de Kalaupapa, na ilha de Molokai, e não voltava. Entre 1919 e 1922, com o tratamento em uso, o hospital Kalihi deu alta a 151 pessoas. Kalaupapa liberou outras 44 e passou quatro anos sem receber ninguém novo.

Não era cura, e é importante dizer isso com todas as letras. Foi o tratamento mais eficaz que existiu até os antibióticos sulfona, nos anos 1940. Ela também não descobriu o chaulmoogra: o óleo já era usado há séculos. O que ela resolveu foi como pôr o óleo dentro do corpo.

O crédito

Alice Ball morreu em 31 de dezembro de 1916, aos 24 anos, antes de publicar. Arthur Dean, químico, orientador dela e então diretor do College of Hawaii, depois presidente da universidade, seguiu o trabalho, publicou os resultados sem creditar a origem e o método passou a circular com o nome dele.

Em 1922, o médico Harry Hollmann, que tinha sido quem procurou Ball para o problema do óleo, escreveu em artigo nos Archives of Dermatology and Syphilology que quem havia resolvido a questão era ela, e chamou o procedimento de método Ball.

Nos anos 1970, os professores Kathryn Takara e Stanley Ali foram atrás dos registros na Universidade do Havaí. A placa em homenagem a ela veio em 2000, o mesmo ano em que o Havaí instituiu o Dia de Alice Ball, marcado para 29 de fevereiro. Em 2022 o estado voltou a proclamá-lo, agora em 28 de fevereiro, data que cai todo ano. Em 2007 a universidade lhe concedeu, postumamente, a Regents' Medal of Distinction.

Fontes: Universidade do Havaí, Smithsonian Magazine, Honolulu Civil Beat e Images of Old Hawaii.