Campeonato Paulista Sub-15, Votoraty contra Referência, no Estádio Domênico Paolo Metidieri, em Votorantim, interior de São Paulo. Fim do primeiro tempo. Quando a arbitragem saía de campo em direção ao vestiário, um homem na arquibancada chamou o árbitro Marcos Roberto de Jesus Nunes de macaco.

Quem estava na arquibancada

Não era um torcedor anônimo no meio de uma multidão. Era o pai de um dos atletas do Votoraty.

Ele foi identificado por outros torcedores, por parte da equipe de apoio e pela própria segurança do estádio, que testemunharam a ofensa. Em seguida foi conduzido à delegacia de Votorantim.

O que o árbitro fez

No início do segundo tempo, Marcos acionou o protocolo antirracista da FIFA e abandonou a partida. Não esperou o jogo acabar para reclamar depois. Saiu do estádio e foi até a delegacia mais próxima registrar boletim de ocorrência.

O gesto que ele tinha à disposição

O sinal existe desde maio de 2024, quando foi aprovado no 74º Congresso da FIFA, em Bangcoc, pelas 211 federações filiadas. Quem sofre a ofensa cruza os braços na altura dos punhos, formando um X, e isso comunica ao árbitro, ao quarto árbitro ou ao capitão que há ataque racista em curso.

A partir daí vem um protocolo de três etapas: paralisação temporária da partida; suspensão, se o ataque continuar; e abandono definitivo, se persistir. O gesto estreou na Copa do Mundo Sub-20 feminina de 2024, na Colômbia.

Repare na idade

Sub-15 quer dizer atletas de até 15 anos. O homem estava ali para ver o próprio filho jogar. As crianças estavam em campo quando aconteceu, e viram o que veio depois: o árbitro largar o apito e ir embora.

Elas aprenderam duas coisas ao mesmo tempo naquele sábado. Que um adulto responsável por uma delas grita ofensa racial numa arquibancada de futebol infantil. E que existe um procedimento, e que dá para usar.

Por que isso é raro

O protocolo existe há anos e quase nunca chega ao fim. Quem aciona costuma pagar caro: vira o assunto do jogo, é acusado de exagero, carrega o rótulo de problemático.

Marcos foi até o fim num jogo de base. Sem transmissão, sem câmera, sem plateia para aplaudir e sem nota de clube grande. Não houve manchete internacional. Houve um boletim de ocorrência e uma partida que não terminou.

Fontes: CNN Brasil, Revista Afirmativa, Alma Preta e FIFA, agosto de 2026.