Em 30 de julho de 2026, o senador Angelo Coronel, do Republicanos da Bahia, registrou sua candidatura à reeleição no Tribunal Superior Eleitoral declarando-se pardo.

Nas eleições de 2014 e de 2018, ele havia se declarado branco.

A assessoria do senador afirma que houve erro de preenchimento e que a equipe jurídica pediu a correção. Até agora não há manifestação da Justiça Eleitoral sobre o caso.

Por que a linha do formulário importa

A autodeclaração racial no registro de candidatura não é dado estatístico. É critério de distribuição de dinheiro.

Pela Resolução 23.749/2026 do TSE, candidaturas de pessoas autodeclaradas pretas ou pardas entram no grupo de candidaturas negras para efeito de alocação do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do tempo de propaganda no rádio e na televisão.

A regra existe porque a sub-representação de pessoas negras na política brasileira é estrutural e documentada. Ela foi construída para corrigir uma distorção histórica.

O padrão

O caso não é isolado na Bahia. Em 2022, durante a campanha ao governo do estado, ACM Neto fez ajuste semelhante na própria autodeclaração.

O ex-governador Rui Costa resumiu o fenômeno numa frase que circulou rápido: "Aqui na Bahia, virou moda: a cada eleição, os candidatos mudam a cor da pele."

O que está em jogo

Identidade racial no Brasil é assunto complexo, e existem trajetórias legítimas de pessoas que se reconhecem como negras na vida adulta. Isso é real e não deve ser tratado com deboche.

Mas quando a mudança acontece no ano da eleição, no formulário que define repasse de verba e tempo de televisão, e por parte de quem se declarou branco por duas eleições seguidas, a pergunta deixa de ser sobre identidade.

Passa a ser sobre um mecanismo criado para reparar exclusão e que pode acabar financiando quem nunca foi excluído por ele.

Cada real que vai para uma candidatura que não deveria estar naquele grupo é um real que sai de uma candidatura negra real, geralmente sem estrutura e sem palanque.

Fontes: registro no TSE, Revista Afirmativa e imprensa baiana, julho e agosto de 2026.