O americano Ben Shelton, de 23 anos, disputa neste domingo (13), às 15h de Brasília (14h em Nova York), segundo a ATP, a final do US Open contra o alemão Alexander Zverev. É a primeira final de Grand Slam da carreira dele e a primeira vez desde Arthur Ashe, em 1972, que um homem negro americano chega à decisão do torneio.
Uma semifinal que o torneio nunca tinha visto
Nas quartas de final, Shelton eliminou o atual campeão, Carlos Alcaraz, segundo a ESPN. Na sexta-feira (11), venceu Frances Tiafoe por 4-6, 6-3, 6-3 e 7-5, com 20 aces, em 3h17 de partida, de acordo com o The Root.
Foi a primeira semifinal masculina do US Open disputada entre dois negros americanos, como registrou a CNN. Se vencer Zverev, Shelton será o primeiro americano campeão de Grand Slam desde Andy Roddick, em 2003, lembra a ESPN.
O menino barrado que virou nome de estádio
Arthur Ashe foi campeão do US Open em 1968, contra Tom Okker, e voltou à final em 1972, quando perdeu para o romeno Ilie Năstase em cinco sets, segundo a CNN. Até hoje, é o único homem negro americano campeão de Grand Slam em simples.
Na juventude, em Richmond, Ashe era mandado embora das quadras públicas da cidade, reservadas a brancos, conforme o site do legado de Ashe mantido pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Hoje, o principal estádio do US Open leva o nome dele.
Ashe não foi o último negro americano a jogar uma final de Grand Slam: MaliVai Washington disputou a de Wimbledon em 1996. À CNN, Washington disse, em tradução livre: "É difícil assim, e não só para um atleta negro, quando há tão poucos no circuito."
Pai técnico, avó na origem
O pai de Ben, Bryan Shelton, jogou os quatro Grand Slams e chegou às oitavas de final de Wimbledon em 1994, segundo a CNN. Depois virou técnico da Universidade da Flórida, onde levou o time ao título nacional universitário de 2021. Ben foi campeão individual da Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA) em 2022. Em 2023, Bryan deixou a universidade para treinar o filho, informou o Tennis.com.
Após a semifinal, Ben falou da avó, segundo o Tennis Majors (tradução livre): "Meu pai perdeu a mãe dele no começo deste ano. Ela é a razão de ele ter podido jogar tênis. Sem ela, não haveria nenhum Ben Shelton aqui hoje."
Tiafoe é filho de imigrantes de Serra Leoa, segundo o Andscape. O pai trabalhava como zelador de um centro de tênis em College Park, em Maryland, e morava num quartinho de depósito do local, onde os filhos também dormiam, contou a CBS News em 2014.
No Brasil, o tênis é da classe A
Um estudo publicado em 2018 na revista Movimento, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ouviu 130 tenistas de 13 a 18 anos, 102 meninos e 28 meninas, durante dois torneios internacionais da Confederação Brasileira de Tênis: a Copa Guga Kuerten e a Copa Santa Catarina. A classificação seguiu o critério da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP).
Nas palavras dos autores: "A maioria dos tenistas infantojuvenis de elite pertence à classe socioeconômica A (84,6%). Apenas 6,9% são da classe B1 e 5,4% da classe B2. Da classe C1, foi verificado somente um atleta (0,8%)."
Nasceram no Sudeste 60,3% deles, e no Sul, 27%. Começaram a jogar aos 8 anos, em média, e treinam 19 horas por semana. Dos 130, 88,5% têm treinador e preparador físico, 61,9% contam com fisioterapeuta, 59,5% com nutricionista e 50% têm algum patrocínio. Os autores comparam com o futebol: no estudo de Marques e Samulski, de 2009, 79,6% dos atletas pertenciam à classe média ou baixa. E concluem: "Tênis, no Brasil, é um esporte elitizado, sendo praticado predominantemente por indivíduos da classe A."
A pesquisa aponta como obstáculos o número reduzido de quadras públicas e o alto custo das aulas e do material, como raquetes, bolas e calçados. O estudo não mede cor nem raça, e por isso não diz quantos desses jovens são negros. Mas mostra que a porta que Ashe encontrou fechada em Richmond, a da quadra pública, continua estreita por aqui.
Fontes: CNN; ESPN; ATP; The Root; Tennis Majors; Tennis.com; CBS News; Arthur Ashe Legacy, UCLA; Andrade, Casagrande, Bevilacqua, Pereira, Alves, Goya e Coimbra, "Perfil Sociodemográfico, Socioeconômico e Esportivo de Tenistas Infantojuvenis Brasileiros de Elite", revista Movimento (UFRGS), v. 24, n. 1, 2018.