Benjamim de Oliveira em frente ao Circo Teatro Dorby, do qual era sócio e diretor teatral
Benjamim de Oliveira em frente ao Circo Teatro Dorby, do qual era sócio e diretor teatral. Revista Comoedia, Rio de Janeiro, março de 1947. Acervos Erminia Silva e família de Benjamim de Oliveira.

Em 1882, um menino de doze anos fugiu de casa em Pará de Minas com a trupe do Circo Sotero, que passava pela cidade.

Ele se chamava Benjamin Chaves. Nasceu em 11 de junho de 1870, filho de Malaquias Chaves e de Leandra de Jesus, e nasceu forro: a alforria dele e a dos irmãos veio no nascimento.

O sobrenome Oliveira ele pegou emprestado do instrutor dele no circo, um artista chamado Severino de Oliveira. É com esse nome que ele entra na história do teatro brasileiro, e é esse nome que quase ninguém sabe.

Palhaço, ator, cantor e autor de peças

Ele virou trapezista e acrobata, e é reconhecido como o primeiro palhaço negro do Brasil. Na estreia como palhaço, o público o rejeitou. Ele seguiu, e acabou aclamado como o rei dos palhaços do país.

Escreveu peças de sucesso, entre elas O Diabo e o Chico e A Noiva do Sargento. Cantava lundus, chulas e modinhas ao violão nos intervalos, e gravou discos pela Columbia por volta de 1910.

E ele inventou um gênero

O circo-teatro foi introduzido no Rio de Janeiro por ele e teve auge entre 1918 e 1938. Começou com paródias de operetas e contos de fadas encenados, e chegou a peças de Shakespeare e à representação da Paixão na Semana Santa.

Em 1908 ele protagonizou Peri numa adaptação de O Guarani filmada no Circo Spinelli, o que também o coloca entre os primeiros artistas negros do cinema brasileiro.

Então por que você nunca ouviu esse nome?

Em 1941 ele pediu ajuda de passagem e transporte para uma excursão a Belo Horizonte, e o pedido foi negado. Só em 1947, depois de pressão de jornalistas na Câmara dos Deputados, ele passou a receber uma pensão do governo.

Morreu no Rio de Janeiro em 1954. As fontes divergem sobre o dia, e por isso esta matéria fecha só o ano. O formato que ele criou continuou rodando o país por décadas sem o nome dele colado.

A volta começou num trabalho de escola

No fim de 2018, ainda no ensino médio, Isaac Belfort recebeu a sugestão de pesquisar Benjamim de Oliveira para um trabalho escolar. A pesquisa nunca foi encerrada e virou musical.

Benjamim, O Palhaço Negro estreou em 2022 no Teatro Cesgranrio, no Rio, já passou por Pará de Minas, cidade natal do homenageado, e está em nova temporada em São Paulo desde 18 de agosto, às terças-feiras às 20h30, no Espaço Cia. da Revista, com temporada até 15 de setembro. Os ingressos são vendidos pela Sympla.

O que Amos Wilson descreveu

Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata do processo em que o povo negro produz a cultura e outro assina a autoria. Benjamim inventou o circo-teatro. O formato sobreviveu. O nome, não.

Um legado só desaparece quando deixa de ser contado. Isaac Belfort, que idealizou o musical, assina a direção de produção e integra o elenco

Memória não se guarda sozinha. Ela se guarda em palco próprio, em livro próprio e em arquivo próprio.

Fontes: Notícia Preta, 20 de agosto de 2026, e Geledés. Foto: revista Comoedia, 1947, acervos Erminia Silva e família de Benjamim de Oliveira.