Todo candidato entrega ao Tribunal Superior Eleitoral uma lista dos próprios bens. O valor de cada item é escrito pelo próprio candidato. Ninguém confere.
O resultado apareceu logo depois do fim do prazo de registro, em 15 de agosto. Um candidato a deputado estadual em São Paulo, Fernando Irineu de Souza, o Fê (PDT), declarou R$ 500 milhões correspondentes a 10% de um "community token a ser lançado em breve" de um jornal de super-heróis. O registro foi homologado. Nada na lei impede isso.
Os cinco que alegaram erro
Cinco candidatos disseram publicamente que os valores estavam errados, depois que a imprensa noticiou:
Pablo Marçal (PRTB), candidato à Presidência, declarou R$ 7,4 bilhões e afirmou que foi erro de digitação, pedindo correção. Em 2024 ele havia declarado R$ 169,5 milhões.
Lúcia Viana (PSOL), candidata a vice-governadora do Tocantins, declarou R$ 2,07 bilhões. A assessoria do partido confirmou erro de preenchimento que transformou milhares em milhões, e disse que o valor correto é de cerca de R$ 2 milhões. Na lista dela havia um Toyota Etios 2015 avaliado em R$ 35 milhões e um imóvel rural registrado a R$ 900 milhões, quando o correto seriam R$ 900 mil.
Georgia Micheletti (PSDB), candidata a deputada estadual no Acre, declarou R$ 1,2 bilhão. O partido confirmou erro de digitação.
André Silva (MDB), candidato a deputado estadual em Alagoas, declarou R$ 548 milhões. O diretório do partido pediu correção.
Alvamiro Alves Branco (PDT), candidato a deputado estadual em Minas Gerais, declarou um lote com casa e garagem no valor de R$ 400 milhões. O diretório mineiro confirmou que o valor correto é R$ 400 mil.
E os que não alegaram nada
Tirados esses cinco, os maiores patrimônios da eleição são de gente que não alegou erro nenhum, porque não é erro:
Luiz Osvaldo Pastore (PL), candidato a primeiro suplente de senador pelo Tocantins, com R$ 677,7 milhões. Empresário da metalurgia, é dono do avião que levou o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, ao Peru em 2025. A aeronave nem consta da declaração, porque está em nome de uma empresa da qual ele é sócio.
Antídio Lunelli (MDB), candidato a senador por Santa Catarina, com R$ 613,2 milhões, vindos em boa parte do grupo têxtil que leva o nome da família. Em vídeo de campanha, ele aparece capinando um terreno e promete levar a enxada para Brasília. Em 2022 havia declarado R$ 390 milhões.
Otaviano Pivetta (Republicanos), governador do Mato Grosso e candidato à reeleição, com R$ 575,7 milhões. É o candidato a governador mais rico do país. Em 2022 declarou R$ 378,8 milhões.
Fê (PDT), o do token, com R$ 501,1 milhões.
Leonardo Avalanche (PRTB), candidato a vice-presidente na chapa de Marçal, com R$ 495,2 milhões, quase tudo declarado em criptomoedas.
O que mais aparece nas declarações
Somando o que os candidatos de todo o país declararam ao TSE em 2026: 78 aeronaves, que valem R$ 115 milhões juntas; 147 embarcações, R$ 20,3 milhões; 145 joias, quadros e objetos de arte, R$ 40,5 milhões. Há um relógio, sem marca informada, avaliado em R$ 1,35 milhão.
Por que isso importa
A diferença entre os dois grupos não foi apurada por ninguém do Estado. Foi a imprensa que olhou, e olhou só para os cinco maiores. Os valores que ninguém noticiou seguem no ar exatamente como foram digitados.
O trabalhador da escala 6x1 acorda às cinco da manhã para pegar o trem. Esse trem atrasa. Às vezes pega fogo. O candidato do jatinho nunca esperou na plataforma com a marmita na bolsa, e é o voto desse trabalhador que decide se ele vai para Brasília.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson mostra a concentração de riqueza e de poder político operando junto, uma sustentando a outra. A declaração de bens é o ponto em que as duas ficam visíveis de graça, para qualquer pessoa, e mesmo assim quase ninguém olha.
A consulta é pública e gratuita, em divulgacandcontas.tse.jus.br. Basta escolher o ano de 2026, buscar pelo nome e clicar em bens declarados.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, arquivos abertos de declaração de bens e de candidaturas de 2022 e 2026, somados por candidato a partir do arquivo consolidado nacional. Casos de erro admitido: Metrópoles, 23 de agosto de 2026, e Gazeta do Povo. Ranking conferido contra a lista dos dez candidatos mais ricos do Brasil publicada pela Gazeta do Povo em 19 de agosto de 2026. Foto: plenário do Senado Federal, por Boaventuravinicius, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.