Circula nas redes sociais um vídeo mostrando dois homens sendo abordados e detidos em poucos minutos, suspeitos de fazer uma blitz falsa no Rio de Janeiro. Não encontramos cobertura de imprensa que confirme os detalhes específicos que acompanham o vídeo, então esta matéria não é sobre esse caso. É sobre o que os números dizem quando a farda é verdadeira.
Os números que não viralizam
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 registrou 6.602 mortes por intervenção policial em 2025: recorde histórico, 18 por dia. 82% das vítimas eram negras, que têm 3,5 vezes mais chance de morrer numa abordagem policial do que uma pessoa branca.
Investigar não é condenar
Uma dissertação de mestrado da Faculdade de Direito da USP, da pesquisadora Debora Nachmanowicz, aprovada em setembro de 2024, mapeou 1.224 inquéritos concluídos sobre mortes causadas por PMs na cidade de São Paulo entre 2015 e 2020. Apenas 122 viraram denúncia, 9,9%. Desses, 49,1% chegaram a júri. No fim, foram 20 condenações no total, menos de 2% dos casos investigados. E só 4 dessas 20 condenações foram por mortes cometidas em serviço.
Um vídeo de blitz falsa resolve em minutos porque não tem uma corporação inteira para atravessar. A blitz real, quando erra, tem perícia, corregedoria, inquérito, e uma taxa de condenação que a matemática classifica como exceção.
Dois nomes, dois inquéritos sem desfecho
Wesley dos Reis Cordeiro, 41 anos, morador do Capão Redondo, em São Paulo, foi morto por dois PMs na madrugada de 5 de julho de 2026, horas depois de comemorar o aniversário de dois anos da neta. A polícia disse ter atirado por suspeitar que ele fosse armado; vídeos e a família contestam a versão: mostram que a jaqueta que a polícia citou como esconderijo estava amarrada na cintura. Um Inquérito Policial Militar foi aberto. Não há indiciamento concluído até a publicação desta matéria.
Thawanna da Silva Salmázio foi morta a tiros em Cidade Tiradentes, também em São Paulo, na madrugada de 3 de abril de 2026, depois que o retrovisor da viatura policial esbarrou em seu marido na rua. A discussão que se seguiu terminou com um disparo da soldado Yasmin Cursino Ferreira. A soldado e o parceiro foram afastados das operações, não presos, não indiciados até aqui. Um IPM também foi aberto.
Afastamento não é condenação. Inquérito não é sentença. Nos dois casos, o processo mais visível até agora foi administrativo, não penal.
Fontes: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública); dissertação de mestrado de Debora Nachmanowicz, Faculdade de Direito da USP (2024), via reportagem da Agência Pública; CNN Brasil (casos Thawanna Salmázio e Wesley dos Reis Cordeiro); Agência Pública (Wesley dos Reis Cordeiro).