Cais do Valongo, Rio de Janeiro
Cais do Valongo. Foto: Brian John Godfrey / CC BY 2.0 / Wikimedia Commons.

O Cais do Valongo foi construído em 1811, na zona portuária do Rio de Janeiro. Entre 1811 e 1831, cerca de um milhão de africanos escravizados desembarcaram ali. Foi o maior porto de entrada da diáspora africana forçada nas Américas.

Em 1843, Teresa Cristina vinha de Nápoles para casar com dom Pedro II. O desembarque de uma futura imperatriz não podia acontecer no mesmo cais por onde entravam os africanos.

O Império mandou aterrar o Valongo. Ergueram um cais novo por cima e batizaram o lugar de Cais da Imperatriz.

O cais ficou enterrado por 168 anos. Só voltou à luz em 2011, durante as obras de revitalização da zona portuária.

O que foi entregue em 18 de agosto

Com cortejo do Afoxé Filhos de Gandhi, o governo federal entregou o Edifício Docas André Rebouças para abrigar o futuro Centro de Interpretação do Patrimônio Africano do Cais do Valongo.

São 77 milhões de reais em recursos federais e três anos de obra de adaptação pela frente.

É importante dizer com clareza: o museu não abriu. O que foi entregue foi o prédio. O acervo previsto é de cerca de um milhão de peças encontradas no Valongo e no entorno, e mesmo os responsáveis falam em décadas de trabalho até se saber o que existe ali.

O prédio e o nome

A edificação é de 1871, do período imperial, e se chamava Armazém Dom Pedro II. Recebeu o nome de André Rebouças em 2025, por decisão do Conselho Consultivo do Iphan.

Rebouças nasceu na Bahia em 1838. Foi engenheiro e abolicionista, apontado como o primeiro engenheiro negro do país, e assinou o projeto das docas da região.

Um detalhe que a Agência Brasil registra e que vale reter: a construção de 1871 não usou mão de obra escravizada.

Por que o aterro importa mais que o prédio

O Cais do Valongo é hoje Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro por lei federal.

Mas por 168 anos ele foi terra batida sob os pés de quem passava. Não foi esquecido por acidente. Foi coberto por decisão, e a decisão tinha data, motivo e nome de noiva.

Amos Wilson escreveu em A Falsificação da Consciência Afrikana que quem controla o registro do passado controla o que um povo consegue reivindicar no presente. Aterrar um cais é um jeito de escrever história. Desenterrar também.

Faltam três anos de obra. O que já está de pé é o argumento.

Fontes: Agência Brasil, 18 de agosto de 2026. Iphan e Unesco.