As câmeras corporais dos policiais militares que mataram o diácono José Carlos da Rocha Sobrinho, de 42 anos, na zona leste de São Paulo, só foram acionadas depois dos disparos, segundo o boletim de ocorrência. O caso é de 13 de julho, mês que terminou com 66 mortes decorrentes de intervenção policial no estado, o maior número para julho desde 2019, segundo levantamento da Ponte Jornalismo com dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP).
A abordagem
Na segunda-feira, 13 de julho, José Carlos dirigia um Volkswagen Fox pela Rua Wagner de Araújo, no Parque São Rafael, quando foi parado por uma viatura da Companhia de Ações Especiais de Polícia, segundo a Ponte. O g1 atribuiu a abordagem à Rota. Ele foi baleado no pescoço, na cabeça e na coxa direita e morreu no Hospital de Sapopemba. Era diácono do Ministério Jeová Rapha.
O g1 registrou, com base no boletim, que as câmeras corporais dos policiais só foram acionadas depois dos disparos e que a Polícia Civil ainda não tinha tido acesso às imagens. Segundo o Metrópoles, o mesmo documento traz, nos campos de identificação dos cinco policiais, a anotação de que não usaram a câmera.
As duas versões
Os policiais afirmaram que José Carlos desobedeceu à ordem de parada e “portava arma de fogo do tipo pistola, Glock, calibre 380, com numeração suprimida”, e que ele sacou a arma e a apontou para eles. A família diz que ele não reagiu e estava desarmado. Testemunhas ouvidas pelo g1 dizem que não houve troca de tiros: “O que a gente viu foram cinco disparos direto.”
A família nunca negou que ele tivesse passagens pela polícia, registrou a Ponte. O filho, Bruno, cobra a divulgação das imagens das câmeras. Os policiais foram afastados das atividades operacionais. O caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e em inquérito policial militar, com acompanhamento da Corregedoria da Polícia Militar.
Quem liga a câmera
Desde 2025, as câmeras da Polícia Militar paulista não gravam o turno inteiro. Pelo acordo homologado no Supremo Tribunal Federal, o acionamento passou a ser feito pelo policial ou, à distância, pelo Centro de Operações. A SSP fala em 15 mil equipamentos e três formas de acionamento: remoto, por proximidade via Bluetooth e manual.
Em reportagem de agosto, a Folha de S.Paulo analisou 25 boletins de mortes pela polícia e encontrou acionamento tardio das câmeras em 5 deles, quatro de julho. Ao jornal, Rafael Rocha, do Instituto Sou da Paz, disse que o programa de câmeras “em dois anos, reduziu basicamente 60% a letalidade policial”.
66 mortes em julho
Das 66 mortes de julho, 63 foram cometidas por policiais militares e 3 por policiais civis; 57 por agentes em serviço e 9 por policiais de folga. Foram 30 na capital, 21 no interior, 10 na Grande São Paulo e 5 no litoral. É o quinto maior número para o mês na série histórica iniciada em 2013, atrás de 2014 (79), 2017 (77), 2019 (75) e 2018 (68), segundo a Ponte.
A SSP afirma que todas as mortes decorrentes de intervenção policial “são investigadas com rigor pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário”. No país, 82% das 6.243 pessoas mortas pela polícia em 2024 eram negras, segundo o Anuário 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Fontes: Ponte Jornalismo; Ponte, 20/07; g1; Metrópoles; Folha de S.Paulo; Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.