Duas candidatas negras do Partido dos Trabalhadores (PT) em Minas Gerais denunciaram em setembro ameaças de morte com ofensas racistas. A deputada estadual Andréia de Jesus, que disputa a reeleição, recebeu por email uma mensagem que expõe dados pessoais dela e da família. Ana Elisa Santos Silva, candidata a deputada federal na primeira eleição, registrou boletim de ocorrência e diz que não tem medida protetiva. As duas se declaram pretas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Um email com os dados da família
Andréia de Jesus denunciou na sexta-feira, 11 de setembro, uma nova ameaça de morte, segundo o site Alma Preta. A mensagem, enviada por email, traz ameaças diretas contra a deputada, ofensas racistas e ameaça de violência física. O autor descreve “com detalhes dados pessoais da deputada e de seus familiares, como telefones, endereços e registros gerais”, relata o Alma Preta.
Ela acionou os órgãos competentes e cobrou uma investigação urgente para identificar e responsabilizar o autor. A reportagem não informa quais órgãos foram acionados nem se houve boletim de ocorrência. A deputada afirma que o episódio se soma a mais de 4 mil ameaças recebidas em oito anos de mandato.
“Não vão conseguir”
“Em 2022, tentaram fazer a mesma coisa: me intimidar, me ameaçar e me tirar da política. Não vão conseguir. Eu não vou me calar e não vão retirar uma mulher preta da política pela força da violência”, afirmou Andréia, segundo o Alma Preta.
Para ela, o recado vai além do próprio mandato. “Não estamos falando apenas de uma ameaça contra mim. Estamos falando de uma mensagem para todas as mulheres negras que ousam ocupar a política: vocês não são bem-vindas aqui. E é justamente por isso que a resposta das instituições precisa ser firme. Quem ameaça precisa ser investigado e responsabilizado.”
Primeira eleição, sem medida protetiva
Também no início de setembro, Ana Elisa Santos Silva recebeu mensagens com linguagem de ódio racial e ameaças explícitas de morte e de violência sexual, segundo o Alma Preta. O autor se apresentou como integrante de um grupo supremacista branco, citou dados pessoais da candidata e ameaçou os familiares dela. As mensagens citavam grupos extremistas como a Ku Klux Klan.
Ana Elisa registrou boletim de ocorrência na 142ª Companhia da Polícia Militar (PM), e o caso foi registrado como ameaça e injúria racial. Segundo a Agência Pública, também levou o caso ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG).
Mesmo assim, diz que continua insegura. “Eu fui ameaçada de morte, não tenho segurança, não tenho medida protetiva, não tenho absolutamente nada e não tenho dinheiro”, disse à Pública. Ela considera que as ameaças, a ela e a outras candidatas mineiras, fazem parte de um ataque coordenado para enfraquecer candidaturas progressistas no estado. Nenhuma das reportagens consultadas liga as ameaças entre si ou identifica os autores.
Não são só elas
A deputada estadual Bella Gonçalves (PT), candidata a deputada federal, alertou ter recebido ameaças de morte e estupro nos primeiros dias de setembro, segundo a Pública. As mensagens, diz ela, se parecem com as que recebeu em 2024 e trazem informações de caráter privado. “É uma violência sem rosto”, afirmou. Ela pediu providências à Polícia Legislativa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e à Justiça Eleitoral.
A deputada federal Duda Salabert, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), candidata à reeleição, denunciou em 4 de setembro ter sido agredida na noite anterior, quando fiscalizava uma denúncia de extração ilegal de minério na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima. Ela classifica o episódio como tentativa de homicídio. Segundo o jornal O Tempo, citado pela CartaCapital, o boletim de ocorrência registra o caso como lesão corporal. Em nota publicada pelo Poder360, a Polícia Civil informou que instaurou procedimento para investigar os fatos.
Nas reportagens, os casos de Bella e Duda não são descritos como racistas.
A lei tem cinco anos
A violência política contra a mulher ganhou uma lei específica em 2021, a Lei 14.192, e é crime eleitoral. Para Bella Gonçalves, órgãos que deveriam amparar as vítimas, como a Justiça Eleitoral e a Polícia Federal, não estão preparados para o problema, e as candidatas que entram na política “seguem muito desprotegidas para enfrentar a violência política de gênero”.
Nas reportagens consultadas não há manifestação da Polícia Civil, da PM nem do TRE-MG sobre os casos de Andréia de Jesus e Ana Elisa Santos Silva.
Fontes: Agência Pública; Alma Preta; Poder360; CartaCapital; Tribunal Superior Eleitoral (DivulgaCandContas).