Em 18 de setembro, o corregedor-geral eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, aceitou a ação de investigação judicial eleitoral apresentada por Flávio Bolsonaro (PL) contra Lula e Geraldo Alckmin por causa de um desfile de escola de samba. A ação acusa abuso de poder político e econômico nos repasses públicos ao desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente no Carnaval de 2026. Também são investigados Janja, Marcelo Freixo e o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.
A três semanas do segundo turno, o Carnaval está dentro da disputa presidencial. E não é a primeira vez que a maior festa popular do país vira alvo de quem governa em nome da fé.
Uma festa do tamanho de uma economia
O Ministério do Turismo estimou para o Carnaval de 2026 mais de 65 milhões de foliões e R$ 18,6 bilhões movimentados no país. Só São Paulo esperava 16,5 milhões de pessoas; Rio de Janeiro e Salvador, 8 milhões cada; Recife e Olinda, 7,6 milhões. A Confederação Nacional do Comércio projetou 39,2 mil vagas temporárias só no turismo.
E a festa é renda para quem trabalha na rua. A Prefeitura de São Paulo credenciou 15 mil ambulantes para o Carnaval de rua de 2026. Em Belo Horizonte, a Belotur, empresa de turismo da prefeitura, ouviu 3.326 ambulantes: 76,7% se declararam pretos ou pardos, 17,1% estavam desempregados, e o lucro médio estimado foi de R$ 4,8 mil.
É também uma festa de matriz negra. Em 2007, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou as matrizes do samba do Rio de Janeiro, partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo, como patrimônio cultural do Brasil. Em Salvador, o Ilê Aiyê, fundado em 1974 no Curuzu, precisou de escolta policial nos primeiros desfiles por causa do preconceito.
O peso evangélico no poder
No Censo de 2022, os evangélicos são 26,9% da população, contra 21,6% em 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Entre as pessoas que se declaram pretas, são 30%. No Congresso, a Frente Parlamentar Evangélica reúne 212 dos 513 deputados e 26 senadores.
Na Câmara, o Projeto de Lei 830/2025, do deputado Pastor Gil (PL-MA), apresentado em março de 2025, proíbe "imagens sacras, símbolos sagrados e representações desrespeitosas à fé cristã, católica ou evangélica" em desfiles de escolas de samba e eventos carnavalescos. Prevê advertência, multa de 300 salários mínimos na reincidência e suspensão da escola por até 36 meses. O texto define até o que seriam "imagens satânicas". Está na Comissão de Cultura, aguardando parecer.
Na justificativa, o autor escreve: "O Carnaval, que deveria ser um momento de celebração e união, tem se tornado palco para a afronta a valores sagrados". A pergunta que o projeto não responde é quem decide o que é afronta.
Crivella: "O carnaval é apenas uma festa"
No Rio, o prefeito Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal, propôs em 2017 cortar pela metade a verba das escolas de samba, de R$ 24 milhões para R$ 12 milhões. "Se vamos usar esses recursos para uma festa de três dias (Carnaval) ou ao longo de 365 dias ao ano", disse. Em 2018, resumiu: "O carnaval é apenas uma festa". Para 2020, a prefeitura zerou a subvenção às escolas do Grupo Especial.
Niterói e o TSE
Em fevereiro de 2026, uma ala da Acadêmicos de Niterói levou à Sapucaí conservadores e evangélicos dentro de latas com o rótulo "família". O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Gilberto Nascimento (PSD-SP), reagiu: "O que me preocupa é o deboche criminoso, o escárnio contra a fé cristã".
Flávio escreveu nas redes que "o Carnaval é cultura, é tradição e merece respeito", mas criticou o uso de dinheiro público "para atacar a fé de milhões de brasileiros enquanto políticos aplaudem de camarote". Depois, foi ao Tribunal Superior Eleitoral.
O que é a ação no TSE
É uma ação de investigação judicial eleitoral, o instrumento da Justiça Eleitoral para apurar abuso de poder em campanha. Os autores são Flávio Bolsonaro e o candidato a vice na chapa dele, Alfredo Gaspar. Os investigados são Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin, a primeira-dama Janja Lula da Silva, Marcelo Freixo, candidato do PT a deputado federal, e o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.
A acusação é de abuso de poder político e econômico e de uso indevido dos meios de comunicação. Segundo a ação, a Prefeitura de Niterói, a Prefeitura do Rio, o governo do estado do Rio de Janeiro e a Embratur repassaram R$ 9,6 milhões à escola depois do anúncio do enredo, em julho de 2025. O enredo contava a vida de Lula, da infância em Pernambuco à Presidência.
Em 18 de setembro, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, aceitou a ação e deu até cinco dias para a defesa. Aceitar não é condenar: a decisão abre a investigação, e o mérito ainda será julgado.
Não é a primeira vez que ele mexe com a festa. Em 2017, como deputado estadual, assinou com Bruno Dauaire e Milton Rangel o Projeto de Decreto Legislativo 52/2017, que obrigava blocos de rua a voltar a pedir autorização às Polícias Civil e Militar e ao Corpo de Bombeiros. O projeto nunca foi aprovado.
Festa negra e popular não é caso de polícia nem de pecado. É cultura, é trabalho e é a renda de milhares de famílias que vendem na rua. Quem trata o Carnaval como ameaça à fé está decidindo, também, quem pode ganhar a vida com ele.
Fontes: Correio da Manhã, 19 de setembro de 2026, sobre a ação no TSE. InfoMoney, 17 de fevereiro de 2026, sobre a publicação de Flávio Bolsonaro. Jornal de Brasília (Folhapress), 16 de fevereiro de 2026, sobre o desfile e a reação da Frente Parlamentar Evangélica. IstoÉ Dinheiro, 18 de fevereiro de 2026, sobre as estimativas do Ministério do Turismo. Mercado&Consumo, 21 de janeiro de 2026, sobre a projeção da Confederação Nacional do Comércio. Prefeitura de São Paulo, 28 de janeiro de 2026. Diário do Comércio, 27 de janeiro de 2026, sobre a pesquisa da Belotur. Diário de Pernambuco, 6 de junho de 2025, sobre o Censo 2022. Câmara dos Deputados, ficha do Projeto de Lei 830/2025 e da Frente Parlamentar Evangélica. Monitor Mercantil e IstoÉ Dinheiro, junho de 2017, Tribuna PR, 9 de fevereiro de 2018, e IstoÉ, 30 de agosto de 2019, sobre Marcelo Crivella. Gazeta do Povo, 10 de outubro de 2007, sobre o registro do Iphan. CNN Brasil, 2 de novembro de 2024, sobre o Ilê Aiyê. Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, ficha do Projeto de Decreto Legislativo 52/2017.