No dia 20 de agosto, o jornal britânico The Guardian publicou uma carta aberta endereçada aos presos políticos do Irã. Ativistas, estudantes, trabalhadores, artistas. Vinte e quatro pessoas assinaram. Uma delas, Mumia Abu-Jamal, está presa na Pensilvânia desde 1981 e assinou de dentro da cadeia.
A carta pede duas coisas ao mesmo tempo. Que o governo iraniano pare de executar e solte os presos políticos. E que os Estados Unidos e Israel parem a guerra e as sanções.
Dois dias depois, quem caiu em cima dos signatários não foi a direita. Foi a própria esquerda.
O que a carta diz
A imagem central do texto é de uma tesoura: o preso iraniano está entre duas lâminas, o regime de um lado e as bombas do outro. Foi essa figura que provocou a reação. Em 22 de agosto, o historiador Vijay Prashad respondeu acusando a carta de criar uma simetria falsa entre o Estado iraniano e o poder americano. No mesmo dia, o escritor Sudip Bhattacharya publicou uma crítica na mesma direção. No dia 23, a imprensa estatal iraniana entrou na discussão.
Os números do lado iraniano são graves e não têm desculpa. Só neste ano, a organização Iran Human Rights, com sede em Oslo, verificou pelo menos 444 execuções no Irã em sete meses. O Centro Abdorrahman Boroumand, de Washington, conta 916. Entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano, o próprio governo iraniano admite ter matado 3.117 pessoas na repressão aos protestos, e a agência de notícias dos ativistas de direitos humanos no Irã, a HRANA, verificou caso a caso 7.007.
A metáfora não é dos professores
A acusação de que acadêmicos americanos inventaram uma equivalência confortável esbarra numa data. Em julho de 2025, treze meses antes da carta, dois presos políticos iranianos escreveram um relato de dentro da prisão de Evin. Abolfazl Qadyani e Mehdi Mahmoudian descreveram estar entre dois perigos, passados de um para o outro: as feras estrangeiras e os torturadores domésticos. O relato foi publicado pelo Center for Human Rights in Iran.
Eles escreveram isso porque em 23 de junho de 2025 Israel bombardeou Evin. No horário de visita. O judiciário iraniano contou 71 mortos, o governo falou em 79. Entre eles havia funcionários administrativos, jovens em serviço militar, detentos, familiares que estavam ali visitando e vizinhos da prisão. A Human Rights Watch e a Anistia Internacional classificaram o ataque como aparente crime de guerra. Os presos que sobreviveram foram transferidos à força e maltratados, e alguns desapareceram, dessa vez pelas mãos das autoridades iranianas.
Quem assinou
A lista não é aleatória. Angela Davis, que já foi presa política e saiu da cadeia para construir o movimento pela abolição das prisões. Ruth Wilson Gilmore, que deu a essa tradição a definição de racismo que ela usa até hoje. Robin D. G. Kelley. Keeanga-Yamahtta Taylor. Ruha Benjamin. Judith Butler. Rashid Khalidi.
Racismo é a produção e a exploração, pelo Estado ou fora dele, de uma vulnerabilidade à morte precoce distribuída por grupo. Ruth Wilson Gilmore, Golden Gulag, 2007
Repare que não há país nessa frase. É um critério, e critério serve para medir qualquer lugar. Quando essa gente cobrou o Irã, não estava sendo incoerente. Estava aplicando a própria régua.
A frase que abre a porta
O problema não é a frase. É quem a diz. Quando Angela Davis pede a soltura dos presos de Teerã, não há exército atrás do pedido. Quando Washington diz exatamente a mesma coisa, há.
Em 13 de janeiro deste ano, Donald Trump disse aos manifestantes iranianos para continuarem protestando, que a ajuda estava a caminho. Em fevereiro, ao anunciar os bombardeios, declarou que a hora da liberdade deles havia chegado. No primeiro dia da guerra, 28 de fevereiro, um míssil Tomahawk americano atingiu a Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, província de Hormozgan. Morreram pelo menos 110 crianças, 26 professores e 4 pais. A Anistia Internacional apurou a arma pelos destroços, o Pentágono confirmou o disparo e uma investigação do New York Times concluiu que a responsabilidade era americana. Trump disse que tinha sido o Irã ou outra pessoa.
A escola atendia famílias pobres da região, incluindo a minoria balúchi. A mesma minoria que a carta cita como perseguida pelo governo iraniano.
Em 17 de junho, Estados Unidos e Irã assinaram um memorando de entendimento de catorze pontos. Não havia uma linha sobre presos políticos, sobre dissidentes perseguidos ou sobre direitos humanos. Quem documentou a ausência foi Holly Dagres, do Washington Institute, instituto alinhado a Israel. Quatro meses entre a promessa de liberdade e o acordo que não a menciona.
O que sobra
Denunciar a cadeia de Teerã é obrigação, e foi isso que aqueles vinte e quatro fizeram, cobrando as duas pontas na mesma frase. O que não dá é aceitar que essa denúncia vire licença para bombardear. No instante em que a frase "o Irã mata dissidente" se transforma em moeda, ela compra míssil. Foi com esse argumento que se pagou por 110 crianças em Minab.
Amos Wilson escreveu sobre como o controle da narrativa é anterior ao controle do território. Quem define o que conta como liberdade, define o que conta como libertação. E quem controla essa definição raramente é quem está preso.