Existem duas cantoras no palco do Alegría. Uma veste branco, a outra veste preto. Há pouco mais de trinta anos, quando o espetáculo estreou, elas não tinham o mesmo tamanho: a de preto era o alter ego da de branco, quase um backing vocal. Hoje dividem o palco pelo mesmo tempo, e quem canta a de preto é uma brasileira.
Cássia Raquel é carioca e formada em canto pela UFRJ. Antes do circo, construiu carreira no teatro musical brasileiro, quase sempre, como ela conta adiante, sendo a única preta do elenco ou uma das poucas. Passou pelo processo de seleção do Cirque du Soleil em 2021 e estreou em novembro daquele ano, em Houston.
O espetáculo
Alegría foi criado em 1994 e virou o disco mais vendido da história do Cirque du Soleil. Em 18 de abril de 2019, em Montreal, a companhia estreou Alegría: In a New Light, uma releitura feita para os 25 anos do espetáculo, com figurino, cenário e arranjos novos. O elenco atual reúne 54 artistas.
A personagem também tem outro nome hoje. Já se chamou The Black Singer, e passou a se chamar Singer in Black. Na entrevista, é Cássia quem explica o que mudou junto com o nome.
Segundo o site Drama de Honra, a montagem já foi vista por mais de 3,5 milhões de pessoas em sete países desde 2019. A temporada brasileira está em São Paulo, no Parque Villa-Lobos, até 8 de novembro, e segue para Curitiba, no Expotrade, de 19 de novembro a 13 de dezembro.
A entrevista
Cássia respondeu às nossas 13 perguntas por áudio, de São Paulo, em 3 de setembro. Ela fala da mudança do personagem, do que significa ser a única mulher preta de um elenco de 54, da escola que quer abrir na zona norte do Rio e da ausência de diretores e produtores negros no teatro brasileiro. Segue a íntegra.
Nota de edição: as respostas foram transcritas dos áudios e receberam limpeza leve de fala, como repetições e concordância. Os trechos em que a transcrição automática ficou duvidosa foram conferidos no áudio original antes da publicação. Onde aparece [local], é explicação nossa de um termo de bastidor, não fala dela.
Sobre o papel e a história
O personagem se chamava Black Singer e, em montagens anteriores, foi interpretado por cantoras brancas, como Eve Montpetit no especial gravado em 2001. Quando você soube disso, o que passou pela sua cabeça? E como foi reconstruir a Singer in Black com a sua identidade, não como a sombra de ninguém, mas como protagonista?
Eu acredito que esse personagem passou por uma reformulação porque também o espetáculo como um todo é visto de uma forma mais moderna, com o olhar que a sociedade tem hoje em dia. Ele é bem mais político. E as nossas vozes, apesar de se misturarem muito bem, têm sim pequenas diferenças, para contrastar e diferenciar as tribos que existem dentro dessa dramaturgia.
Então de Black Singer passou a ser Singer in Black, porque o figurino dá o destaque da diferença entre as duas cantoras, que hoje têm o mesmo peso. Antes era basicamente um alter ego da cantora de branco, então era vista mais como backing vocal, e agora ambas dividem o palco com basicamente o mesmo peso, no mesmo tempo de aparição cênica. Então ele tem um peso muito maior.
E é claro que eu coloco a minha identidade, como ponho em qualquer personagem que eu faço. Eu me identifico muito com a personagem, me identifico muito com a estrutura vocal dela. Todo o figurino, a maquiagem, tudo combina com a minha personalidade, então foi muito mais fácil me entregar para esse papel, porque eu não precisei mudar tanto. Eu simplesmente coloquei a minha visceralidade, a minha brasilidade, a minha experiência, a minha força.
Eu gosto de colocar a minha voz de uma forma que preencha bem os espaços, e tem que ser uma voz que dê potência, como se cada nota elevasse o atleta, o artista, a fazer os truques de uma maneira mais encantadora e que cause um impacto grande em quem está assistindo.
Você descreve o personagem como alguém que captura mensagens apenas no olhar. Como você trabalhou isso numa companhia onde a maioria do elenco fala outras línguas?
Justamente por sermos um elenco em que temos mais de 14 nacionalidades aqui, e basicamente falarmos inglês entre nós, eu acredito que a melhor forma de se comunicar é justamente com o olhar, respirar junto. E eu acredito que a minha parceira faz muito bem isso comigo.
A gente se olha bastante, principalmente porque os números aqui às vezes têm pequenas mudanças, ou porque tem rotações. O show nunca é o mesmo, é um show muito vivo, que quebra expectativas. Então muita coisa a gente não pode gesticular, muita coisa a gente não vai poder produzir sons, mas no olhar a gente sabe se respira, se entra, se sai, se pausa.
Tem o olhar do carinho, tem o olhar da atenção, o olhar do ator de modo geral, que consegue transmitir muita coisa só ali. As letras das músicas também não necessariamente têm um idioma oficial, nem todas têm. Às vezes é apenas um vocalize, mas com o nosso olhar e com a forma que a gente canta, a gente entrega a mensagem que a gente quer passar.
Sobre ser a única
Você é a única mulher negra no elenco principal atual? O que esse número diz sobre o teatro musical de forma mais ampla? E quando você olha para o palco e procura alguém que se pareça com você, o que você vê?
Sou a única mulher preta, mas não sou a única pessoa preta desse espetáculo. Aliás, um dos números mais importantes é o número do fogo, que é feito por um samoano. Então assim, é Black Power total, ainda mais porque o fogo já remete isso para a gente. A música tem uma batida percussiva muito forte. Eu acho que eu me entrego totalmente ali, em todas as minhas raízes.
E essa representatividade é muito importante, não apenas para o circo, mas em toda a minha trajetória do teatro musical, onde, se eu não era única, era uma das poucas, ou geralmente fazia parte de um trio de negras, e era muito porque era necessário ter. Poucas oportunidades eu tive de fazer um espetáculo em que eu fazia um personagem que poderia ser feito por qualquer pessoa, sem estar necessariamente atrelado à minha etnia.
E é muito bom ver pessoas como eu na plateia, famílias inteiras. Eu já falei isso até em músicas minhas, do quanto é legal me espelhar quando eu olho para a plateia. Mas é mais impressionante a forma como eles reagem quando me veem. Muita gente vem sem conhecer muito sobre o elenco, vem apenas pelo nome do circo, e quando veem uma cantora entrando com uma roupa super brilhante e colorida, elas ficam chocadas, em êxtase. A gente realmente capta essa emoção, é muito genuíno.
É uma pena que eu não possa demonstrar muito enquanto estou cantando, mas tem um calorzinho a mais, e eu acabo cantando mais olhando para eles, devolvendo para eles a emoção que eles entregam para mim.
Sobre trajetória e origem
Você estudou canto na UFRJ, veio do subúrbio carioca, passou 15 anos no teatro nacional. Qual momento dessa trajetória mais te preparou para este papel?
Eu acredito que não teve uma única coisa que me preparou para esse papel. Acho que foi um conjunto de tudo que eu estudei. Na UFRJ eu estudei mais música clássica, acho que isso deixa a minha voz mais resistente. O teatro musical me ajudou a me entender como personagem. Tem um pouco do gospel também na forma como eu canto até hoje, eu não consigo tirar.
Acho que tudo faz parte de mim, e o que a gente acumula de bom com isso, a gente leva para o palco. Me ajudou muito a ter maturidade nas minhas escolhas musicais e também como atriz aqui dentro. Então eu consigo entregar uma Singer in Black num combo bem equilibrado.
Você citou Ruth de Souza como referência. O que a história dela te ensinou sobre o que é possível?
A Ruth de Souza foi pioneira como mulher preta nas artes cênicas, na TV, no teatro. Então é aquela máxima que o povo fala: ela teve que correr para a gente conseguir engatinhar. Através dela, e depois de outras, muitas gerações, agora a gente pode se mostrar mais. Porque antes ela deu esse primeiro passo.
Sobre o Brasil e o futuro
Você planeja abrir uma escola de artes acessível para comunidades periféricas. Como esse projeto se conecta com o que você está vivendo agora no palco?
Um dos meus maiores desejos quando voltar para o Brasil é justamente fazer uma escola, ou reabrir a minha escola, com foco em teatro musical, mas voltada para a zona norte do Rio, começando no Rio de Janeiro, que é onde eu nasci e fui criada. Depois a gente pode expandir para outras cidades.
Eu vivi muito isso durante a minha universidade, ou em outros cursos que eu fiz, que a gente precisava fazer longas viagens para conseguir ter um ensino de qualidade. Então eu quero fazer isso, e quero também promover bolsas de estudo. Tudo aquilo que eu fiz, que precisei de muita intensidade, de muitas situações cansativas, proporcionar para outras pessoas de uma forma mais fácil, mais simples, com uma conversa mais franca, mostrando as possibilidades de que uma voz pode fazer um pouco de tudo, várias personagens diferentes, poder se permitir viver esse tipo de coisa.
Você está de volta ao Brasil. Quando você sai do Parque Villa-Lobos e entra na cidade, o que você sente?
É divertido sair daqui do site [local] para a vida real, vamos dizer assim, porque o meu personagem tem tantas camadas, tantas maquiagens, tanto figurino, que eu consigo sair um pouco anônima lá fora e viver a cidade como era pra ser mesmo, só caminhando, mais uma integrante, uma habitante do lugar.
Então eu saio daquele patamar da fantasia e volto para o mundo real, mas mesmo assim muita gente me reconhece. É muito divertido. As pessoas perguntam: é você mesma? Porque acham que eu sou uma pessoa muito maior, muito grande. O palco expande a gente, faz a gente crescer, a postura, a voz. E aqui eu ando como uma outra pessoa, literalmente.
Então é divertido poder pisar no Brasil e em São Paulo, que é uma cidade pela qual eu tenho muito carinho, onde tive a oportunidade de fazer tantos outros shows. Está sendo bem nostálgico para mim.
O que vem depois do Alegría?
Por enquanto, ainda não tenho um pós-Alegría. Eu ainda pretendo ficar aqui o máximo de tempo que eu puder. É muito legal poder estar num lugar em que eu me sinto confortável, com pessoas de diferentes localidades, com uma bagagem cultural enorme que eu tenho acumulado.
E pela primeira vez na minha vida eu não preciso me preocupar em fazer tantas audições. Não preciso me preocupar com as safras de teatro musical, ou de ter que fazer vários trabalhos para poder, sem folga, basicamente sem férias, sair e ter um mínimo de recursos. Fora a oportunidade de poder viajar o mundo.
E eu não vivo só para mim, eu vivo para a minha família, para a minha comunidade. Então, enquanto eu posso viajar, meus amigos e meus parentes vêm me visitar também, e conseguem usufruir de tudo isso, mesmo que indiretamente.
Mas quando voltar ao Brasil, eu quero voltar forte. Quero voltar para produzir, quero voltar para ter a minha escola. Todo o conhecimento que eu adquiri nesses últimos anos eu quero compilar nos meus cursos.
Sobre produção negra e mercado
Aqui na redação e na editora desenvolvemos um trabalho que visa autonomia de consciência na perspectiva de poder para o povo preto. Você é uma referência preta em vários sentidos, não só pela sua trajetória, mas pela maneira como conduz a sua carreira. Te incomoda a ausência de produtores e diretores negros na cena brasileira em pleno 2026?
Eu vejo muitas pessoas tentando uma vaga em elencos, mas vejo poucas produções majoritariamente negras, poucos diretores negros. Até mesmo quando o espetáculo é feito por um elenco de maioria negra, nem sempre as pessoas que estão no outro lado, na parte de direção, têm a mesma realidade, as mesmas vivências, a minha experiência. Então, tomara que eu tenha uma oportunidade de fazer isso dar certo um dia.
Nas suas andanças mundo afora você notou diferença nesse sentido? E por que é tão difícil a ascensão desses profissionais para além do protagonismo negro dentro do mercado brasileiro?
Eu tento continuar consumindo teatro musical fora do Brasil, principalmente, em todos os lugares que eu vou. Participo de festivais. E sim, acabo vendo mais diversidade de modo geral, não apenas diversidade étnica, mas também de pessoas com mobilidade reduzida, pessoas de idades diferentes. Eu vejo um pouco de tudo, sim.
Eu acho que em outros locais as pessoas estão mais preparadas para essa conversa. Mas ainda se encontra resistência, ainda estamos num caminho longo para andar, mas já vencemos boa parte. A gente tem que insistir, manter e incentivar que outras pessoas continuam estudando, dando o seu melhor, e que em breve essas coisas vão mudar. Eu acho que de pouco a pouco, infelizmente, mas vai mudar sim.
Recado
Deixe um recado para as novas gerações de artistas pretos que estão galgando os primeiros passos na carreira.
Eu espero muito que as pessoas que estão lendo essa matéria hoje, que estão indo nos assistir e investindo na carreira, que a gente possa um dia dividir esse palco e nos vermos cada vez mais no teatro, na TV, no cinema, com tantos projetos, e que a nossa voz possa ser ouvida muito mais vezes. Eu tenho muita esperança disso.
O Brasil tem exportado muitos artistas, e tomara que o próprio brasileiro consiga perceber o quão rica é a nossa cultura, e que aqui dentro mesmo merece todo esse investimento, carinho e parceria. Que as pessoas possam um dia enxergar tudo isso na gente, que não seja só um sonho.
Então eu torço para que isso aconteça em breve. Enquanto isso não acontece, ou está acontecendo aos poucos, que a gente comece a construir, mesmo que pouquinho em pouquinho, colocando a sementinha, que um dia a gente vai colher tudo que a gente está plantando.
Entrevista concedida ao Poder Afrikano por áudio, em 3 de setembro de 2026. Fotos: Phrancesco Guarnieri e Caio Gallucci.