Charles Richard Drew era cirurgião e pesquisador negro estadunidense. Na Universidade Columbia, virou o primeiro negro a receber o título de Doutor em Ciência Médica, com uma tese chamada Banked Blood.
O que ele resolveu
Ele não inventou o banco de sangue. Fez outra coisa, e ela mudou a medicina de guerra: mostrou que, separando o plasma do resto do sangue e refrigerando cada parte por conta própria, o sangue dura muito mais e contamina menos. E que o plasma serve para qualquer pessoa, seja qual for o tipo sanguíneo. É por isso que dá para estocar antes de saber quem vai precisar.
Foi ele quem dirigiu o Blood for Britain, o programa que mandou plasma dos Estados Unidos para o Reino Unido no começo da Segunda Guerra.
A rede nacional, e a regra que veio junto
Em fevereiro de 1941, o Exército, a Marinha e a Cruz Vermelha americana criaram o National Blood Donor Service, a primeira rede nacional de bancos de sangue do país. Drew foi o diretor médico.
O serviço recusava sangue de doador negro. Em dezembro de 1941, um memorando interno com a política vazou para a imprensa e provocou condenação pública. Em janeiro de 1942 os militares anunciaram o que chamaram de acordo: passariam a aceitar sangue de doadores negros, processando separado, para que quem receba transfusão receba plasma de sangue da própria raça.
O que ele fez, e o que não dá para cravar
Drew argumentou por dentro que a ordem não tinha base científica e que nenhum órgão do governo deveria humilhar os próprios cidadãos. Não mudou nada, e ele deixou o cargo em 1942.
Aqui as versões divergem. Muita gente conta que ele renunciou em protesto. Outras fontes registram que não há evidência oficial disso e que ele não tornou pública a objeção no momento. O que todas sustentam é o mesmo: ele foi contra, saiu, e denunciou depois. Em setembro de 1942, em entrevista ao jornal Chicago Defender, chamou o problema de social, e não de médico.
A separação nos bancos nacionais acabou no fim dos anos 1940. A Louisiana só revogou em 1972 a lei estadual que obrigava a separar o sangue doado por raça.
A história que contam da morte dele, e que não é dele
Drew morreu em 1º de abril de 1950, num acidente de carro na Carolina do Norte, a caminho de uma aula em Tuskegee. Conta-se que morreu porque um hospital branco negou transfusão a ele.
Não foi isso. Os médicos do Alamance General o atenderam de imediato, os ferimentos eram grandes demais e a família escreveu depois agradecendo a eles.
O caso real é de outro homem. Maltheus Avery, veterano de 24 anos, se acidentou na mesma região oito meses depois e foi recusado pelo Duke University Hospital porque as camas destinadas a negros estavam lotadas. Morreu a caminho de outro hospital. Com o tempo, a história de Avery virou a de Drew.
Fontes: National Library of Medicine, Jim Crow Museum da Ferris State University, reportagem de Melba Newsome na Undark sobre a Cruz Vermelha e o Jim Crow, e o arquivo do Chicago Defender.