Às 7h34 de 10 de agosto de 2026, um terremoto de magnitude 7,4 sacudiu o ocidente da Colômbia. O epicentro ficou nas proximidades de San José del Palmar, no departamento do Chocó. Foi o sismo mais forte registrado no país neste século.
O balanço da Unidade Nacional de Gestão do Risco de Desastres, atualizado em 12 de agosto, contava 239 mortos, 3.755 feridos e 287 desaparecidos. A emergência alcançou 14 departamentos e 403 municípios, com 49.214 pessoas afetadas. Os danos estruturais mais graves apareceram em Cali, Manizales, Pereira e Quibdó.
O lugar onde o chão cedeu
O Chocó é o departamento com a maior população afrocolombiana do país, 82,1% segundo o censo. É também o mais pobre da Colômbia. Em 2025, 65,3% dos seus habitantes viviam abaixo da linha de pobreza monetária, a maior taxa entre todos os departamentos.
Os dois primeiros lugares não são de listas diferentes. São da mesma lista, lida de dois jeitos.
O terremoto não escolhe. A reconstrução escolhe.
Um tremor libera a mesma energia sobre a estrutura reforçada e sobre a casa de tábua. O que muda o resultado é o que já estava de pé antes e o que vai ser levantado depois. É nesse segundo tempo que o racismo ambiental faz o seu trabalho.
A Organização Nacional Indígena da Colômbia registrou 68.583 indígenas afetados em Caldas, Chocó, Quindío, Risaralda e Valle del Cauca. Quarenta e seis comunidades dos povos Embera e Wounaan tiveram impactos severos. No resguardo Copeg, do rio Ingará, em San José del Palmar, ou seja, no próprio epicentro, os danos foram graves.
A ONIC pediu avaliação de danos com enfoque étnico, censo das moradias rurais indígenas e envio de ajuda humanitária básica. Quando é preciso pedir que a contagem das vítimas leve em conta quem elas são, é porque a contagem padrão não leva.
O país já mostrou como reconstrói
Em 25 de janeiro de 1999, um terremoto de magnitude 6,2 atingiu o Eje Cafetero, com epicentro em Córdoba, no Quindío. Morreram 1.185 pessoas. O Estado criou um fundo dedicado ao caso, o FOREC, que coordenou a reconstrução até ser liquidado em 2002. O Banco Mundial e especialistas internacionais passaram a citar a experiência como exemplo bem sucedido de trabalho conjunto entre Estado e sociedade civil organizada.
Em 18 de outubro de 1992, um terremoto de magnitude 7,1 atingiu o Atrato Medio, entre o Chocó e o Urabá antioquenho. Murindó perdeu 95% da sua área urbana. O município foi transferido sete quilômetros, para a margem do rio Atrato, em caráter provisório. Décadas depois, continua lá.
Dois terremotos, o mesmo país. Um virou caso internacional de reconstrução. O outro virou uma mudança provisória que nunca terminou.
O que observar quando as câmeras forem embora
A parte visível de uma catástrofe é o resgate. A parte que decide o futuro é a reconstrução, e ela obedece a critérios que quase nunca viram notícia: título de propriedade, acesso a crédito, cadastro atualizado, capacidade de um município pequeno de escrever projeto e disputar recurso.
Território coletivo, posse sem título individual e comunidade rural distante do cartório entram nesses critérios em desvantagem. Não por decisão de ninguém em particular, o que é justamente o ponto.
O Chocó volta a ser notícia agora. Vale conferir daqui a um ano quem foi reconstruído.
Fontes: Servicio Geológico Colombiano, Unidad Nacional para la Gestión del Riesgo de Desastres, ONIC, DANE, El Colombiano, El Espectador e Infobae, 10 a 13 de agosto de 2026.