Em entrevista publicada no dia 6 de setembro pelo Notícia Preta, o ator Christian Malheiros falou sobre como escolhe seus personagens. O momento da carreira dele ajuda a explicar por que a resposta interessa: ele levou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Gramado por Justino: nos bastidores do reino, chegou ao 1º lugar no Top 10 global de filmes em língua não inglesa da Netflix com Nando entre dois mundos: um filme sintonia e se prepara para viver Glaidson em O Faraó dos Bitcoins.

Sobre o critério que usa, ele disse: "A minha casca ela é preta, qualquer personagem que eu vou fazer vai ser preto, então o que eu posso contribuir já que a minha cor já transmite uma mensagem para as pessoas? Eu posso fazer com que esse corpo preto tenha os dilemas que ninguém quer ver, é isso que eu faço com meus personagens".

Nando, e o que veio antes dele

Em agosto, a Netflix lançou Nando entre dois mundos: um filme sintonia, desdobramento da série Sintonia, em que Malheiros viveu Nando ao longo de cinco temporadas: um jovem negro periférico que acaba envolvido com o crime enquanto procura uma vida melhor.

"Eu sou um garoto periférico, então falar de Nando também é falar de mim", disse o ator, que contou ter levado para o papel pessoas que conheceu. "No Nando também foi possível trazer pessoas que eu conhecia, primos que perdi pro tráfico, amigos que perdi para o crime e drogas. Eu trouxe esse personagem em outro lugar, com uma outra consciência, mas isso também é representar a minha quebrada e mostrar histórias que sirvam de exemplo do que não fazer e que a gente também possa olhar com mais carinho".

Segundo ele, o filme só existiu porque havia um destino diferente reservado ao personagem, que decide largar o crime. "A Netflix me chamou e eu falei topo se a gente passar uma nova mensagem", contou.

O próximo é um criminoso, e o interesse está no que ele pensa sozinho

Em O Faraó dos Bitcoins, Malheiros vive Glaidson, personagem inspirado no líder de um esquema de criptomoedas. O que o atrai, disse, não é o crime em si. "A história do Glaidson me interessa demais, me interessa o dilema, ele fez um monte de coisa e o que me interessa é quando esse cara tá sozinho o que ele pensa? O que ele faz?"

A frase que muda o lugar do debate

Perguntado sobre o movimento de pessoas negras ocupando o protagonismo sem estar num lugar de vulnerabilidade, Malheiros deslocou a conversa. Para ele, não basta olhar quem está diante da câmera, é preciso olhar toda a cadeia de produção, o roteiro e a fotografia.

"Muitas vezes temos uma cara negra, periférica ou de qualquer outra minoria para protagonizar aquele produto e não tem uma estrutura pensada para isso, por isso é tão importante ter pessoas pensando na estrutura de roteiro, de fotografia", disse.

É a diferença entre aparecer e decidir. Um elenco negro num set em que ninguém negro escreve, ilumina ou monta continua sendo um produto pensado por outros. Entre as pessoas que, para ele, vêm mudando isso, citou a atriz e diretora Grace Passó: "Grace é uma das maiores inspirações desse momento que vamos transformar personagens e deixar mais profundo a nossa história".

Ele fechou a entrevista falando da geração a que pertence e do que considera obrigação dela: "nossa função aqui é também deixar a porta ainda mais escancarada e preparar o cinema de amanhã".

Fonte: Notícia Preta, 6 de setembro de 2026. Imagem: Nerd Tatuado, via Wikimedia Commons.