A Converse retirou do ar o anúncio do Chuck 70 X publicado em 3 de setembro, depois que usuários apontaram na imagem duas leituras: o capuz da Ku Klux Klan e os pés de uma pessoa enforcada. A peça é da campanha global do modelo, estrelada pela cantora sul-coreana Karina, do aespa. A empresa, que pertence à Nike, reconheceu o erro num comunicado enviado à CBC. Em nenhum momento admitiu intenção, e a acusação segue sendo de alusão.

O que há na imagem

O enquadramento não mostra o rosto da cantora. Mostra a saia, as pernas e um par de tênis pendendo da mão dela, com um facho de luz que desenha um triângulo branco sobre o tecido claro. No chão, uma estrela de luz, o símbolo da marca, cercada por outros pares.

Foram esses dois elementos que a reação nas redes juntou. O triângulo branco sobre o pano claro foi lido como o capuz encapuzado da Ku Klux Klan. O par pendurado pelos cadarços, com as solas viradas para quem olha, foi lido como os pés de alguém enforcado. Nenhuma das duas leituras foi confirmada como intenção da campanha, e a cantora não é apontada por ninguém como responsável pela criação da peça.

A segunda imagem, e o que não se sabe dela

Depois do primeiro anúncio, passou a circular uma segunda imagem atribuída à marca: um homem numa escada de madeira estica o braço para alcançar um par de tênis pendurado num galho. Aqui a apuração para antes de fechar.

A CBC diz que a imagem saiu da conta da Converse na Malásia. A Fashion Times atribui a mesma peça a uma colaboração da marca com a Palmes, de 14 de setembro. A CBC registra que viu cópias em redes sociais e não o original, e que a Converse não respondeu sobre essa imagem. As fontes divergem sobre a origem, e esta reportagem não afirma de onde ela saiu. O que se sabe é que ela entrou na polêmica e que a marca não se pronunciou sobre ela.

Por que a leitura pegou

Uma reação em massa a uma imagem publicitária costuma ser descrita como exagero. Neste caso há um pano de fundo, e ele não é opinião.

Nos últimos dois anos, cerca de meia dúzia de mulheres e homens negros foram encontrados enforcados no Sul dos Estados Unidos. Em vários desses casos, a polícia concluiu por suicídio em pouco tempo, e o ceticismo das famílias e de organizações negras veio da pressa, não de uma prova em contrário. Esses episódios não têm relação com o anúncio. Eles explicam por que um par de tênis pendurado, fotografado de baixo, encontra um público que já viu aquela silhueta antes.

O comunicado

A Converse enviou à CBC uma nota curta. "Entendemos por que essa imagem é profundamente perturbadora e reconhecemos que erramos. Nós a removemos dos nossos canais e estamos trabalhando para removê-la de todos os lugares onde apareceu. Isso não deveria ter acontecido, e vamos fazer melhor."

A nota reconhece o efeito e o erro. Não diz de quem foi a decisão, nem em que etapa a peça foi aprovada. A empresa não respondeu sobre o processo de aprovação.

Uma campanha passa por muitas mãos

O deputado federal americano Troy Carter cobrou da Nike mais que um pedido de desculpas. O argumento dele é de processo: uma campanha global é concebida, fotografada, revisada, aprovada e distribuída, e em cada uma dessas etapas houve alguém em condição de interromper.

É a diferença entre o erro e o sistema que o deixa passar. Um pedido de desculpas responde pelo primeiro. A pergunta sobre quem estava na sala responde pelo segundo.

A fila

O caso não é isolado. Um levantamento do Mundo Negro reúne doze marcas que retiraram campanhas ou produtos depois de acusações de racismo, da Gucci à Target, passando pela H&M. São peças diferentes, em anos diferentes, com um ponto em comum: o problema foi apontado por quem viu, não por quem aprovou.

Nem todas pediram desculpas. Em vários desses casos houve retirada sem admissão de erro, e o levantamento registra ao menos um em que nenhum pedido foi feito. Retirar uma peça encerra o assunto para a marca. Não é o mesmo que responder por ele.

Duas leituras do mesmo ciclo

Uma diz que as pessoas despertaram. O símbolo é reconhecido assim que aparece, a reação vem em horas e a marca não consegue mais sustentar a peça no ar. Doze recuos desde 2017 seriam a prova de que o público mudou.

A outra diz que o recuo já virou parte do produto. A crítica devolve a marca ao noticiário, o pedido de desculpas é escrito na primeira pessoa do plural e a empresa sai da história dizendo que sempre esteve do nosso lado. Nada na estrutura que aprovou a peça precisou mudar para isso acontecer.

As duas leituras cabem nos mesmos fatos, e é por isso que a pergunta importa. Pedir desculpas custa uma nota. Mudar quem decide na sala custa a estrutura. Enquanto a segunda conta não for feita, a repetição do ciclo não é evidência de que alguém acordou: é o formato pelo qual ele se mantém.

Quando a imagem de si chega pronta de fora e volta corrigida pela mesma fonte, o nome disso tem bibliografia. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, está no catálogo da Editora Poder Afrikano.

Fontes: CBC News, de 21 de setembro de 2026, que recebeu o comunicado da Converse; Fashion Times; Notícia Preta, de 21 de setembro de 2026; e o levantamento das doze marcas publicado pelo Mundo Negro em 21 de setembro de 2026. Os doze casos não foram conferidos um a um por esta reportagem e são creditados ao veículo. Fotos: Divulgação.