Um site de criptomoedas lançou na terça-feira, 6 de outubro, um programa que distribui tokens a quem compartilhar nas redes sociais conteúdos que incentivam o voto no 22, número de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. A iniciativa, chamada Brasil 22 Token, ou B22, foi revelada pela Folha de S.Paulo, em reportagem de Patrícia Campos Mello.
O projeto é divulgado no Instagram por um perfil com 12,9 milhões de seguidores que arrecada dinheiro para construir casas para crianças em Uganda, e que aparece como parceiro no site do B22. Em um dos vídeos, crianças e jovens com camisetas do "B22 token" cantam pedindo voto no 22. Segundo a Folha, esse vídeo passou de 1,2 milhão de visualizações.
Como funciona
Para receber os tokens, a pessoa precisa ter B22, compartilhar o projeto numa rede social, enviar o link da publicação e informar uma carteira digital. No mercado de criptomoedas, isso se chama airdrop: a distribuição de moedas para quem cumpre tarefas de divulgação.
O site apresenta o B22 como "um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala", a capital de Uganda. Diz também que a distribuição é "independente de voto" e que o projeto não é oficial nem tem vínculo com nenhum político. Segundo a Folha, quem aparece divulgando a iniciativa nas redes é Kevim Flores, que não se apresenta como dono.
Num post em inglês, o próprio perfil das crianças escreveu que recebeu 120 milhões de tokens B22 com a parceria. Convidou os seguidores a comprar a moeda, compartilhar o vídeo e conhecer o site para ganhar tokens "inspirando outros a votar 22". No mesmo texto, diz apoiar a visão de Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal.
Não é a primeira vez que o perfil aparece ligado a nomes da direita brasileira. Em junho, publicou um vídeo convidando o Brasil para o aniversário da Havan, marcando o empresário Luciano Hang. Na camiseta da criança no centro da cena, ao lado da marca da loja, está escrito "O Brasil que queremos só depende de nós".
O que diz a lei
A legislação eleitoral proíbe dar vantagem econômica a pessoas para que veiculem propaganda eleitoral na internet, e proíbe doações de empresas a campanhas, inclusive em criptomoedas. Três especialistas ouvidos pela Folha apontaram indícios de violação.
Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, o modelo repete os campeonatos de cortes do então candidato Pablo Marçal: "Oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha". Marçal foi condenado por abuso de poder econômico por causa dessa prática. A pesquisadora Nina Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, descreveu uma "operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral" e lembrou que "uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral".
A campanha de Flávio Bolsonaro disse à Folha que responderia aos questionamentos, mas não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
Crianças como cenário
As crianças dos vídeos não votam no Brasil. A causa que o perfil diz defender, casas para crianças em Uganda, virou vitrine de uma moeda que recompensa quem faz propaganda eleitoral para um candidato brasileiro. Quem ganha com a imagem delas é a pergunta que o projeto ainda não respondeu.
Fontes: Folha de S.Paulo, reportagem de Patrícia Campos Mello, 8 de outubro de 2026 (Folhapress). Revista Fórum e BPMoney, 8 de outubro de 2026. Publicações do perfil no Instagram.