Ncediwe Vanqa tem 66 anos e mora em Gugulethu, na Cidade do Cabo, numa casa de 18 metros quadrados. Para ter água, ela caminha até sete vezes por dia até uma torneira comunitária. A menos de dois quilômetros dali, a prefeitura aprovou em julho dois data centers ligados à Equinix, fornecedora de infraestrutura para Amazon, Microsoft e Google.

A Equinix nega ter apresentado pedido de data center na cidade. Os registros municipais mostram três reuniões sobre o assunto.

A cena se repete em outro continente. Em Clarksdale, no Mississippi, cidade de maioria negra onde 55% da população vive na pobreza, mais que o dobro da média estadual e nacional, um data center foi anunciado como promessa de emprego ao lado do Roundyard, bairro negro histórico. Cerca de 15 moradores foram à Justiça alegando que não houve consulta pública.

Parece distante, e não é

No Ceará, dois projetos na Zona de Processamento de Exportação de Caucaia projetam demanda elétrica equivalente a 4,5 milhões de residências. O estado inteiro tinha 3,8 milhões de domicílios no Censo de 2022. A captação de água prevista é no Aquífero Dunas.

Ainda no Ceará, o povo indígena Anacé cobra consulta prévia sobre o data center do TikTok no Complexo do Pecém. A disputa não é de agora: a mobilização que paralisou a obra é de agosto de 2025, e o licenciamento seguiu sob investigação em 2026.

No Pará, o Ministério Público estadual abriu inquérito civil sobre o data center BEL1, da Elea, em Barcarena, um projeto de R$ 250 milhões com início previsto para 2027 e 7,5 MW de potência, o equivalente ao consumo de cerca de 22,5 mil residências. Entre os motivos citados estão ilha de calor, consumo de água e energia, ruído e ausência de consulta pública às comunidades ribeirinhas.

A empresa afirma que a unidade não usará água no resfriamento e será abastecida por energia renovável. E vale dizer com todas as letras: o Ministério Público abriu inquérito, não denunciou nem condenou ninguém.

O que o Congresso aprovou

Em 1º de setembro, o Senado aprovou o Redata, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, previsto no PL 278/2026 e relatado pelo senador Cid Gomes. O texto suspende, por cinco anos, o Imposto de Importação, o IPI, o PIS/Cofins e o PIS/Cofins-Importação na compra de equipamentos de armazenamento e processamento de dados.

A renúncia fiscal estimada é de R$ 7,25 bilhões em três anos: R$ 5,2 bilhões em 2026, R$ 1 bilhão em 2027 e R$ 1,05 bilhão em 2028. O projeto seguiu para sanção presidencial.

O setor cresce rápido no país. Levantamento da consultoria JLL aponta 106 MW entregues no primeiro semestre de 2026, mais 134 MW previstos até dezembro, cerca de US$ 8 bilhões investidos e 660 MW em construção.

Uma ressalva honesta

As três pernas desta história não têm o mesmo recorte, e tratar as três como uma coisa só seria mais fácil do que correto.

Em Clarksdale, a disputa é explicitamente racial: a reportagem descreve uma cidade de maioria negra e um bairro negro histórico. No Brasil, quem cobra consulta prévia são o povo indígena Anacé e as comunidades ribeirinhas de Barcarena, o que faz da pauta uma questão indígena e ribeirinha, não uma pauta negra. E a reportagem sobre a Cidade do Cabo não racializa Gugulethu: ali o eixo que se sustenta é o de classe e infraestrutura.

O que amarra as três não é a cor de quem mora ao lado. É a ordem das perguntas. A máquina chega primeiro, o incentivo fiscal chega junto, e a consulta à vizinhança chega depois, quando chega.

Desenvolvimento para quem, e a que custo?

Fontes: Agência Pública e Pulitzer Center, 5 de setembro de 2026; Capital B News; Agência Senado e Agência Brasil, sobre a aprovação do Redata; Intercept Brasil, sobre a mobilização do povo Anacé; Olhar Digital, 9 de agosto de 2026, sobre o inquérito do Ministério Público do Pará; e levantamento da JLL sobre o mercado brasileiro. Imagem: Bernard303, via Wikimedia Commons.