O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino publicou no domingo, 20 de setembro, uma resposta às críticas que vem recebendo na imprensa pela frequência com que cita filósofos. Ele listou expressões que diz ter lido em jornais, entre elas "jurista de província", e escreveu que elas derivam de um "indisfarçável preconceito regional, de matriz racista". A classificação das críticas como racistas é avaliação dele, não conclusão das reportagens.
O que ele escreveu
"Como derivação desse indisfarçável preconceito regional, de matriz racista, fazem tudo para desqualificar o meu conhecimento sobre Aristóteles e outros pensadores", afirmou o ministro na publicação, que trazia a imagem de um mapa do Brasil com o Maranhão destacado. Ele é maranhense.
Entre as expressões que atribuiu a textos publicados em jornais estão "jurista de província", "pessoa destituída de qualquer qualificação" e "oratória grandiloquente de província". Nenhuma reportagem identifica de qual jornal ou de qual autor saiu cada uma delas. A Gazeta do Povo registra apenas que Dino citou expressões de jornais.
O eixo que ele nomeia é a origem
Vale ler a frase devagar, porque o resumo distorce. O que Dino nomeia é preconceito regional, e o que ele chama de matriz racista é o mecanismo que enxerga por trás do desprezo pela procedência. A Notícia Preta registra de forma expressa que a classificação das críticas como racistas é uma avaliação apresentada pelo próprio ministro.
O estopim: cinco citações em uma sessão
Na sessão extraordinária do Supremo de 15 de setembro, que tratou do futuro do ministro Alexandre de Moraes e terminou sem definição, Dino citou Aristóteles cinco vezes. Na mesma manifestação recorreu a uma passagem bíblica do Sermão da Montanha, a do sal que perdeu o sabor, para falar de um órgão técnico que cede a pressões e perde a utilidade.
O hábito é conhecido. Numa publicação de 6 de setembro, o ministro abriu com uma frase atribuída a Ésquilo, a de que na guerra a primeira vítima é a verdade. Na de 4 de setembro, começou com Cícero, "cedam as armas à toga", e apontou a consulta aos clássicos como uma das saídas para a crise.
O que Pondé discutiu, e o que ele não discutiu
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o filósofo Luiz Felipe Pondé comentou as citações feitas por todos os ministros naquela sessão e questionou algumas escolhas de Dino. Considerou imprecisa a associação entre ironia e descontração, porque em Aristóteles a ferramenta está mais ligada a um gesto de modéstia ou prudência. Concordou que a prudência é enaltecida pelo filósofo, mas questionou a intenção do uso. Achou correta a referência a formas corrompidas de exercício do poder, ainda que a lesse como um recuo. E viu um salto grande no trecho em que Dino invocou o silogismo ao contestar Luiz Fux, alertando para o risco de o uso político da forma descambar em sofisma.
Pondé discutiu o uso dos conceitos. Não tratou da origem nem da cor de ninguém.
A resposta do ministro
Dino afirmou que estudou a obra de Aristóteles na graduação, na Universidade Federal do Maranhão, e depois no mestrado, na Universidade Federal de Pernambuco. Diante da acusação de que algumas citações não constam das obras do filósofo, perguntou se os críticos nunca ouviram falar de paráfrase.
Reconheceu que, por exercer função pública, está sujeito a críticas, mas disse ter o dever de indicar quando enxerga ofensa. "Quem sabe o alerta serve para que melhorem a qualidade ética e técnica das críticas", escreveu. E avisou que continuará recorrendo a Aristóteles, Max Weber e Hobbes, além de referências da cultura brasileira, quando considerar pertinente.
A palavra que faz o trabalho pesado
"Província" carrega muito numa frase curta. Ela supõe um centro onde o saber nasce legítimo e uma periferia onde ele chega como imitação. É uma geografia do mérito, e ela raramente precisa ser dita em voz alta para organizar quem merece ser levado a sério.
Fontes: Notícia Preta e Gazeta do Povo, ambas de 21 de setembro de 2026. A publicação citada é do perfil do ministro em rede social, de 20 de setembro de 2026.