Duas trabalhadoras domésticas negras, de 90 e 65 anos, foram resgatadas de condição análoga à escravidão numa casa de região nobre de Belo Horizonte. A mais velha trabalhava para a mesma família havia 75 anos; a outra morava na casa desde os 5 anos. O caso entrou na Operação Resgate 6, que em agosto retirou 479 pessoas dessa condição em todo o país, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

De uma geração para outra

Segundo a fiscalização, citada pela Repórter Brasil, as duas foram “transferidas de uma geração para outra de empregadores”. Limpavam a casa, faziam as compras e preparavam as refeições, sem descanso nem aos domingos, sem direitos trabalhistas e com restrições à vida social. Nenhuma das duas chegou à quinta série do ensino fundamental, e elas também não tiveram garantidos direitos patrimoniais e sucessórios.

A raça das trabalhadoras é informada pela Repórter Brasil. A nota do MTE e o material da Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais não trazem esse dado.

Quartos sem janela

O Ministério Público do Trabalho (MPT) em Minas Gerais informou que as duas dormiam em quartos sem janela, numa dependência com mofo, e que os benefícios sociais delas eram geridos pelo filho da dona da casa, segundo a Folha de S.Paulo. A investigação começou em março, a partir de uma denúncia anônima.

No dia 3 de setembro, o MPT acionou as Defensorias Públicas do Estado e da União, segundo o Metrópoles. Os custos das indenizações estão sendo levantados pela Superintendência Regional do Trabalho e serão encaminhados à Justiça, informou o Estado de Minas. A família empregadora não foi identificada.

“É inadmissível que em 2026 a gente ainda conviva com essa prática”, disse Carlos Calazans, superintendente do Trabalho em Minas Gerais, ao portal BHAZ.

“A patroa”

Os patrões tentaram convencer as autoridades de que as duas eram membros da família. A fiscalização concluiu que elas prestavam serviços. Depois do resgate, as trabalhadoras foram encaminhadas a uma instituição governamental de acolhimento para mulheres vítimas de violência.

Segundo a Repórter Brasil, elas ainda se referem à antiga empregadora como “a patroa”. Uma delas insistia em lavar a louça e ajudar na limpeza no local de acolhimento.

479 resgatados em um mês

A Operação Resgate 6 foi coordenada pelo MTE, por meio da Secretaria de Inspeção do Trabalho, com o MPT, o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e a Defensoria Pública da União. Foram 231 ações de fiscalização em 19 unidades da federação entre 1º e 31 de agosto. Minas Gerais teve o maior número de resgatados, 208.

No trabalho doméstico, 14 empregadores foram fiscalizados e 9 trabalhadoras, resgatadas. Desde maio de 1995, quando o país criou o sistema de fiscalização, o Brasil soma 70.271 pessoas resgatadas da escravidão, segundo dado da Inspeção do Trabalho obtido pela Repórter Brasil.

Fontes: Repórter Brasil; Ministério do Trabalho e Emprego; Folha de S.Paulo; Estado de Minas; Metrópoles; BHAZ.