Em 2022, Ed Sheeran tocou num show beneficente pela Ucrânia e disse aos ucranianos: “Eu amo vocês, estou com vocês”. Em setembro de 2026, depois que o rapper Macklemore gritou “Palestina livre” ao abrir um show dele nos Estados Unidos e foi tirado da turnê, o cantor britânico escreveu que não usa a plataforma profissional para política. No dia 15, as atrações que ainda iam tocar com ele deixaram a turnê em protesto, entre elas Finneas, que abriria os shows de dezembro em São Paulo.
O que aconteceu em Nova Jersey
Macklemore abria os shows da Loop Tour, turnê de Sheeran pelas Américas. Num show em Nova Jersey, no início de setembro, gritou “Palestina livre” no palco. Segundo a Associated Press, também disse ao público: “A todos os meus irmãos e irmãs judeus, criticar Israel, criticar o apartheid, ser contra o genocídio não é, de forma alguma, uma crítica a vocês”.
Em seguida, foi tirado das datas seguintes nos Estados Unidos. A promotora da turnê, a Messina Touring Group, afirmou que os estádios não aceitariam o rapper, segundo a Global News. Macklemore diz que a pressão partiu de Robert Kraft, bilionário dono do New England Patriots, time da liga de futebol americano, e do Gillette Stadium, onde Sheeran tem shows marcados para 25 e 26 de setembro.
Kraft confirmou só que barrou Macklemore do estádio dele. Disse que a decisão se deve às falas recentes do rapper e ao que chamou de histórico mais amplo de retórica e imagens antissemitas. “Esta decisão não é sobre diminuir o sofrimento de palestinos inocentes”, escreveu, segundo a AP.
A resposta de Sheeran
No dia 15, Sheeran publicou uma declaração no Instagram. “A saída de Macklemore da turnê foi decisão da promotora, não minha”, escreveu. Afirmou que não é cúmplice, que está horrorizado com o conflito e que tem opiniões pessoais sobre ele. “Só porque eu escolho não falar publicamente, não significa que eu não as tenha”, escreveu.
E explicou por que não se posiciona: “Há uma razão para eu não usar minha plataforma profissional para política: meu público inclui jovens, muitas vezes crianças, de todas as origens”.
Quem deixou a turnê
Nas horas seguintes, saíram a banda dinamarquesa Lukas Graham e o cantor irlandês Aaron Rowe, que substituiriam Macklemore nas datas americanas; a banda irlandesa Beoga, que tocava com Sheeran em parte do show desde janeiro; e o americano Finneas, irmão e parceiro musical de Billie Eilish. “Artistas não podem ser silenciados quando falam em defesa dos oprimidos”, escreveu Finneas. “Dinheiro não dá a ninguém o direito de ser dono da conversa”, publicou o Lukas Graham.
Finneas abriria os shows de Sheeran em São Paulo, nos dias 5 e 6 de dezembro, no Nubank Parque. Até o dia 16, a página da casa ainda trazia o nome dele. Segundo a AP, nem Sheeran nem Macklemore se manifestaram depois das saídas. A turnê volta no sábado, 19, na Filadélfia.
Em 2022, a plataforma serviu
Em março de 2022, um mês depois da invasão russa, Sheeran gravou um vídeo para a banda ucraniana Antytila e disse: “Eu amo vocês, estou com vocês”, segundo a Capital FM. No fim daquele mês, foi uma das atrações do Concert for Ukraine, em Birmingham, que arrecadou dinheiro para ucranianos atingidos pela guerra.
Em maio, relançou a música 2step com Taras Topolia, vocalista da Antytila, e abriu o clipe com um recado: “Estou com a Ucrânia”. Os direitos da faixa foram para ajuda humanitária, segundo a Euronews. A AP registra também que Sheeran já fez campanha contra o racismo no Reino Unido.
A régua que a comunidade negra conhece
Quando a guerra começou, estudantes africanos relataram ter sido barrados ao tentar fugir da Ucrânia. Em 28 de fevereiro de 2022, a União Africana disse que tratar africanos de forma diferente seria “chocantemente racista” e uma violação do direito internacional. O embaixador da Polônia negou discriminação.
Na mesma semana, o correspondente da CBS Charlie D’Agata descreveu uma cidade ucraniana como “relativamente civilizada, relativamente europeia”, em comparação com o Iraque e o Afeganistão. Pediu desculpas no mesmo dia.
Agora, o caso Macklemore trouxe de volta Colin Kaepernick, o jogador que em 2016 se ajoelhou durante o hino contra a violência policial e a injustiça racial e depois processou os donos da liga por se unirem para mantê-lo fora dela, num processo que terminou em acordo em 2019. No podcast MeidasTouch, ele citou o veto de Kraft a Macklemore. “Eles estão agindo em conluio abertamente”, disse. “Se você toma uma atitude com a qual eles não concordam, eles vêm atrás de você.”
Análise: quem escolhe qual dor cabe no palco
Esta parte é análise do Poder Afrikano. Nenhuma fonte atribui a Sheeran motivação racial, e a contradição não precisa dela para existir. A regra que ele invoca agora, a de que o palco não é lugar de política, não valia em 2022. A plataforma que serviu a uma guerra não serve à outra.
A solidariedade que cabe no palco costuma ser a que tem consenso entre o público branco e ocidental e não custa estádio, patrocínio nem dono de time. A neutralidade aparece quando a causa passa a ter preço. É uma escolha que a branquitude faz muitas vezes sem perceber que é escolha.
A comunidade negra conhece essa régua. É a que tratou o joelho de Kaepernick como política demais para o campo e a que apareceu nos relatos de estudantes africanos na fronteira da Ucrânia. Silêncio seletivo também é posição.
Fontes: Global News; NBC News; Associated Press, via Boston.com; Capital FM; Euronews; LBC; União Africana; Ethical Journalism Network; TheWrap, via Yahoo Sports; Nubank Parque.