A deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026 chega à Assembleia Legislativa com duas frentes abertas no Ministério Público antes mesmo da posse. Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, vereadora de Praia Grande, recebeu 1.956.238 votos no domingo, 4 de outubro, a segunda maior votação da história do estado para a Assembleia.
Uma frente é sobre o que ela disse dos povos indígenas. A outra, sobre o que ela escreveu para Erika Hilton depois do resultado.
A fala sobre os indígenas
Meses antes da eleição, num debate do RedCast, Campopiano disse: "Glória a Deus que colonizaram, glória a Deus que catequizaram as índias". E continuou: "Glória a Deus que a extrema direita chegou e falou para os índios: 'Galera, fazer sacrifício e comer o braço do irmãozinho não é legal, enterrar criança viva...'".
A rapper e liderança indígena Katú Mirim registrou boletim de ocorrência por preconceito de raça ou cor.
Depois da eleição, a fala voltou a circular. Sônia Guajajara (PSOL-SP), reeleita deputada federal, divulgou nota na segunda-feira, 5 de outubro, e anunciou que registra nesta terça-feira, 6, uma notícia-crime no Ministério Público Federal. "Associar indiscriminadamente os povos indígenas ao canibalismo e à violência contra crianças é uma forma de desumanização", diz a nota.
O recado para Erika Hilton
No mesmo domingo, Erika Hilton (PSOL) foi reeleita deputada federal com 1.596.472 votos, a maior votação de uma mulher na história da Câmara dos Deputados. Depois do resultado, Campopiano escreveu no X: "Oi Erika Hilton. Como é saber que um homem biológico nunca vai ocupar o espaço da mulher mais votada de São Paulo? Rs".
Sofia Favero (PSOL), eleita com 407.773 votos, a terceira maior votação para a Assembleia de São Paulo, acionou o Ministério Público de São Paulo na segunda-feira, 5, por transfobia e violência política de gênero contra Erika.
São duas ações separadas, de duas parlamentares, sobre dois episódios diferentes. Nenhuma delas é, ainda, investigação aberta: há uma representação e uma notícia-crime, e cabe ao Ministério Público decidir o que fazer com elas.
Não são falas isoladas
Num debate, Campopiano disse: "Eu não acho que feminicídio seja algo que exista". Na Câmara Municipal de Praia Grande, ao falar contra as cotas raciais, afirmou: "Nenhum negro nessa sala foi escravizado".
Procurada pelo g1, Campopiano não respondeu.
Quase dois milhões de votos não transformam desumanização em opinião. A partir de fevereiro, quem disse que a catequese foi uma bênção para os indígenas e que nenhum negro na sala foi escravizado vai votar as leis de São Paulo. É por isso que importa o que o Ministério Público fará com as duas denúncias.
Fontes: g1, 4 e 5 de outubro de 2026, sobre o perfil de Eduarda Campopiano, as falas no RedCast, a nota de Sônia Guajajara, a publicação no X e a representação de Sofia Favero. Folha de S.Paulo, coluna de Mônica Bergamo, 5 de outubro de 2026. Terra, 5 de outubro de 2026, sobre a fala a respeito de feminicídio. ND Mais e Portal Paulo Mathias, sobre a fala na Câmara de Praia Grande. Tribunal Superior Eleitoral, dados de votação do primeiro turno.