Uma assessora parlamentar do senador Flávio Bolsonaro negociou em 2023 a liberação de uma emenda de R$ 199.999,79 com Robson Calixto, o Peixe, condenado neste ano por organização criminosa no processo que apura o assassinato da vereadora Marielle Franco. As mensagens foram extraídas pela Polícia Federal do celular de Calixto em março de 2024, numa busca e apreensão, e foram reveladas pelo Estado de S. Paulo nesta segunda-feira, 21 de setembro.

Quem estava dos dois lados da conversa

Do lado do gabinete, Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar do senador. No celular do miliciano, o contato dela estava salvo como “Fafá Flávio Bolsonaro”.

Do outro lado, Robson Calixto Fonseca, policial militar aposentado que foi assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Calixto não é o autor dos disparos que mataram Marielle: ele foi condenado por integrar a organização criminosa apurada no caso. Os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão foram condenados como mandantes do crime.

O que as mensagens mostram

Entre outubro e novembro de 2023, Calixto cobrava a liberação da verba. Segundo a reportagem, a assessora o orientou a procurar o senador pessoalmente para pedir a liberação dos recursos. As conversas não foram publicadas na íntegra; o que se conhece é o teor descrito pela apuração.

Na mesma troca de mensagens, a assessora pediu a Calixto quatro ingressos para o desfile das escolas campeãs no Sambódromo.

Para onde o dinheiro foi

Em 29 de novembro de 2023, R$ 199.999,79 de uma emenda do senador foram pagos ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o Ifop, na Taquara, zona oeste do Rio. O valor fica vinte e um centavos abaixo do teto de R$ 200 mil.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União, incorporada à investigação, identificou que parte dos valores destinados ao Ifop pagou um escritório de advocacia que pertence aos donos do próprio instituto.

O que dizem os citados

Procurado, Flávio Bolsonaro afirmou que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte” e que “a entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados”. Ele não comentou os diálogos entre a assessora e Calixto.

Maria de Fátima Bezerra Castro e Robson Calixto não responderam. A defesa de Domingos Brazão disse que ele não atuou nesse caso; a de Chiquinho Brazão afirmou não ter conhecimento da investigação.

O que já se sabia e o que é novo

O repasse da emenda ao Ifop já havia sido noticiado em maio de 2026, quando se soube que a Polícia Federal investigava o destino do dinheiro. O que a apuração desta segunda-feira acrescenta é quem negociou dentro do gabinete e o teor das mensagens apreendidas.

Quem era Marielle Franco

Marielle Franco era mulher negra, cria da Maré e vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, a quinta mais votada da cidade na eleição de 2016, com 46.502 votos. Socióloga formada pela PUC-Rio e mestre em Administração Pública pela UFF, presidiu a Comissão da Mulher da Câmara Municipal e foi uma das vozes mais duras contra a violência policial nas favelas.

Ela foi assassinada a tiros em 14 de março de 2018, no Estácio, no centro do Rio, junto com o motorista Anderson Gomes.

Sete anos depois, um homem condenado por integrar a organização criminosa apurada nesse caso aparece cobrando emenda no gabinete de um senador da República — e a assessora do senador ainda lhe pediu ingressos para o Carnaval.

Fontes: Estado de S. Paulo, via Terra, Bahia Notícias, Revista Fórum, GGN, Diário do Centro do Mundo e Brasil 247 (21 de setembro de 2026). Perfil de Marielle Franco: CartaCapital e Folha PE.