A cientista da computação Nina da Hora criou um conceito para nomear uma coisa que já estava acontecendo e não tinha nome: epistemicídio computacional.

Ele descreve como sistemas técnicos, bancos de dados, algoritmos e arquivos digitais apagam e distorcem determinados corpos e modos de existir.

A definição, em uma frase

O epistemicídio computacional acontece quando a capacidade de um sistema de distinguir entre pessoas é sistematicamente pior para alguns grupos do que para outros.

Repare no que isso significa na prática. Não é o sistema errar de vez em quando. É errar mais, e sempre com os mesmos.

Um reconhecimento facial que confunde rostos negros entre si não está com defeito aleatório. Ele foi treinado num conjunto de imagens onde aqueles rostos apareciam menos, e aprendeu a resolver menos aquele contorno.

De onde vem o conceito

Nina da Hora é formada em Ciência da Computação pela PUC-Rio e mestra pelo Instituto de Computação da Unicamp, onde integrou o laboratório RECOD.ai. É fundadora do Instituto da Hora, dedicado a direitos digitais no Brasil.

O conceito dela é inspirado no trabalho da filósofa Sueli Carneiro sobre o apagamento do sujeito negro na produção de conhecimento.

Isso importa. Epistemicídio não é uma palavra nova inventada para a tecnologia. É um conceito do pensamento negro brasileiro sendo aplicado a uma máquina.

O artigo solo dela sobre o tema foi aceito na FAccT 2026, a principal conferência internacional sobre justiça, responsabilidade e transparência em inteligência artificial.

Por que isso não é assunto de nicho

Reconhecimento facial já é usado em abordagem policial, em controle de acesso, em pagamento e em fronteira.

Quando o sistema resolve pior um grupo, o erro não fica no papel: ele vira abordagem indevida, porta que não abre, pessoa confundida com outra.

A pergunta deixa de ser se a máquina é neutra. Passa a ser quem estava no conjunto de treino.

Fontes: Geledés e Jornal da Unicamp, 2026.