Lula (PT), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) assinaram a Carta-Compromisso contra o Trabalho Escravo, proposta aos candidatos a presidente pela Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). Flávio Bolsonaro (PL) foi convidado e não assinou até o prazo, que terminou na segunda (28). No mesmo dia em que a adesão foi divulgada, a Repórter Brasil mostrou que Michelle Bolsonaro, candidata do PL ao Senado pelo Distrito Federal, recebeu R$ 100 mil de um empresário que passou pela Lista Suja do trabalho escravo.
A carta
A Conatrae reúne, desde 2003, organizações da sociedade civil e do Estado, e colhe adesões de candidatos a cada eleição desde 2006. Entre os compromissos da carta, segundo a Repórter Brasil, estão tratar o combate ao trabalho escravo e ao tráfico de pessoas como prioridade do mandato, "não promover empresas que tenham utilizado mão de obra escrava ou infantil", dar atendimento jurídico e social a trabalhadores migrantes, apoiar uma política de atendimento aos resgatados e exonerar quem, em cargo público de confiança, se beneficiar desse tipo de mão de obra.
Flávio Bolsonaro, Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) estão no grupo de candidatos que, segundo a Repórter Brasil, "declinaram ou não responderam até a data-limite". A reportagem não separa quem recusou de quem não respondeu, e nenhuma das matérias sobre a carta traz resposta da campanha de Flávio.
A doação a Michelle
A prestação de contas de Michelle Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registra uma doação de R$ 100 mil de Simão Sarkis Simão, feita em 3 de setembro. É a primeira disputa eleitoral da ex-primeira-dama. Até a entrega parcial de 13 de setembro, a campanha tinha recebido R$ 3,548 milhões, quase tudo da direção nacional do PL.
Sarkis é dono da Fazenda Santo Aurélio, em Paracatu, no noroeste de Minas Gerais. Segundo a Repórter Brasil, uma fiscalização na fazenda de gado resgatou dez trabalhadores, que dormiam sobre pedaços de espuma, tomavam banho numa barragem usada também pelo gado e bebiam água de uma cisterna sem proteção. Na Justiça do Trabalho, o Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais manteve uma indenização de R$ 390 mil por dano moral coletivo e elevou de R$ 30 mil para R$ 40 mil a indenização devida a cada trabalhador.
A passagem de Sarkis pela Lista Suja, o cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego com os empregadores responsabilizados por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão, remonta a junho de 2013, segundo a reportagem. O nome dele não aparece no cadastro atual, atualizado em 28 de setembro.
A doação é legal
Ter passado pela lista não torna a doação ilegal, e a própria Repórter Brasil registra isso. Procurados pela reportagem, Michelle, o PL e Sarkis não responderam.
O caso dela não é isolado. Cruzando as prestações de contas entregues até 16 de setembro com mais de duas décadas da Lista Suja, a Repórter Brasil encontrou 13 empregadores que passaram pelo cadastro e doaram ao menos R$ 837,4 mil a 15 candidatos de nove partidos.
Para entender como o trabalho escravo atravessa a história do Brasil até hoje, veja o catálogo completo da Editora Poder Afrikano.
Fontes: Repórter Brasil, "Lula, Caiado e Augusto Cury assinam compromisso contra o trabalho escravo" e "Michelle Bolsonaro e mais 14 receberam doação de pessoas da Lista Suja" (30 de setembro de 2026); TSE, DivulgaCandContas; Ministério do Trabalho e Emprego, Cadastro de Empregadores (atualizado em 28 de setembro de 2026); TRT da 3ª Região. Foto: Agência Senado.