Pretos e pardos são 56% da população brasileira. Nas candidaturas a deputado estadual registradas para 2026, o cargo com mais vagas e mais candidatos, são 50,7%. Perto da proporção. Parece resolvido.
Só que candidatura não é poder. E quanto mais poder tem o cargo, menos negros aparecem disputando.
O funil
Percentual de candidatos negros por cargo, em 2026:
Deputado estadual: 50,7%. Deputado federal: 48,0%. Governador: 40,2%. Senador: 36,9%.
São 14 pontos percentuais de queda entre o primeiro degrau e o último. A cada passo para cima na hierarquia, a proporção encolhe.
Vale a ressalva: entre os quatro cargos acima, o Senado é o que tem menor participação negra. A disputa presidencial tem percentual ainda mais baixo, 23,1%, mas com apenas 13 candidaturas no país inteiro, um universo pequeno demais para comparar.
Onde as mulheres negras somem
Nos cargos legislativos, a participação de mulheres negras ficou estável entre 2022 e 2026, em torno de 18%, tanto para deputada federal quanto para deputada estadual.
No executivo, encolheu. Candidatas negras a governadora eram 21 em todo o Brasil em 2022. Em 2026 são 13. O percentual caiu de 9,2% para 6,5%.
Não é o eleitorado que produz esse recuo. Ninguém votou ainda. É a formação da chapa.
O Senado melhorou e ainda é o pior
Entre os candidatos ao Senado, a participação negra subiu de 32,5% em 2022 para 36,9% em 2026, alta de 4,4 pontos. É o maior avanço entre os cargos de disputa nacional.
E mesmo assim o Senado continua sendo, dos quatro cargos principais, aquele com menor participação negra. Melhorar não basta quando o ponto de partida é o fundo do funil.
A decisão que o eleitor não participa
Nada disso foi decidido na urna. Todos esses números vêm do registro de candidatura, apresentado antes de qualquer voto ser dado.
Quem escolhe o nome que vai encabeçar a chapa ao governo do estado é o partido. Quem escolhe quem disputa o Senado é o partido. O eleitor recebe a lista pronta e escolhe dentro dela. Quando a lista já chega filtrada, a eleição não tem como desfazer o filtro.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson analisa como o poder controla quais rostos chegam às posições de decisão, e como o acesso amplo à base convive tranquilamente com o fechamento do topo. O funil não é acidente de percurso. É a forma como a coisa está montada.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, arquivos abertos de candidaturas de 2022 e 2026, lidos do arquivo consolidado nacional. Percentual de pretos e pardos na população: Censo 2022, IBGE. Foto: fachada do Congresso Nacional, por Senado Federal, via Wikimedia Commons, CC BY 2.0.