Rodrigo Manga, prefeito de Sorocaba
Rodrigo Manga, prefeito de Sorocaba. Foto: TSE / domínio público / Wikimedia Commons.

O prefeito Rodrigo Manga inaugurou uma nova base da Guarda Civil Municipal de Sorocaba com um vídeo promocional que circula nas redes desde a semana passada. Nos primeiros segundos: um homem negro rouba um celular. Em seguida, outro homem negro surge com uma espada e decepa o braço do ladrão. No final, o homem branco aparece — com a tecnologia que resolve o problema.

O elenco não foi acidente. Cada papel foi escolhido: o críme negro, a punição negra, a solução branca. A GCM como instituição aparece no lugar do homem branco — a força que chega depois, com ordem e método.

O mecanismo tem nome

Amos Wilson descreveu esse fenômeno em A Falsificação da Consciência Afrikana. O título já é o argumento: quando o povo colonizado interioriza a visão que o colonizador tem dele, passa a exercer violência contra si mesmo com a eficiência de quem acredita que é merecida.

No vídeo da GCM, o executante negro não precisa de ordem externa. Ele já sabe o que fazer com o criminoso negro. O sistema só precisa aparecer no final, como salvador, depois que o trabalho sombrio já foi feito.

O que o vídeo comunica sem dizer

Não é uma peça sobre segurança pública. É uma peça sobre quem é perigoso e quem é protetor. A castação é medieval e deliberada: ela comunica que o crime negro merece punição corporal exemplar. A GCM entra depois não para impedir a violência — para oferecer uma versão gerenciada dela.

Wilson chamou isso de falsificação porque é exatamente isso: uma imagem do mundo onde o negro é simultaneamente o problema e o instrumento da punição, e o branco é quem organiza os dois. Aceitar esse roteiro como natural é aceitar a falsificação.

A instituição que fez o vídeo

A GCM de Sorocaba é uma guarda municipal armada com mais de mil agentes. O vídeo foi produzido para divulgar a inauguração de uma nova base — é material oficial da Prefeitura. Não é um erro de comunicação. É uma escolha editorial sobre como a instituição quer ser vista e como quer que o crime seja visto.

A escolha foi: crime = negro, punição = negro, solução = instituição (= branca).

Fontes: vídeo oficial da Prefeitura de Sorocaba, 18 de agosto de 2026.