Na noite de sábado, 22 de agosto, o 54º Festival de Cinema de Gramado terminou com seis artistas negros reconhecidos em categorias de atuação. Só tinha acontecido uma vez antes, em 2004.
Quem ganhou
Por Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton: Teca Pereira levou o Kikito de Melhor Atriz, Lázaro Ramos o de Melhor Ator Coadjuvante, e Yuri Gomes recebeu menção honrosa.
Por Justino: Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte: Christian Malheiros levou o Kikito de Melhor Ator, e Onna Silva recebeu menção honrosa.
Por Pele de Rinoceronte: Naruna Costa levou o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante.
Fora das categorias de atuação, o Kikito de Melhor Filme ficou com Nosso Segredo, dirigido por Grace Passô, que também levou Melhor Fotografia, com Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, com Lucas Osório.
A única outra vez
Foi na 32ª edição, em 2004. Naquele ano, seis artistas negros também foram premiados em categorias de atuação, e todos pelo mesmo longa: Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo.
Milton Gonçalves venceu como Melhor Ator. Léa Garcia e Ruth de Souza dividiram o prêmio de Melhor Atriz. Rocco Pitanga foi Melhor Ator Coadjuvante. Taís Araújo e Thalma de Freitas dividiram o de Melhor Atriz Coadjuvante.
Vinte e dois anos. Vinte e uma edições.
Entre a noite de 2004 e a noite de sábado, o Festival de Gramado realizou 21 edições sem que a marca se repetisse.
Vale dizer o que isso não significa. Não quer dizer que artistas negros passaram 22 anos sem receber prêmio nenhum em Gramado. Quer dizer que seis de uma vez, em categorias de atuação, na mesma edição, não voltou a acontecer em nenhum desses 21 anos.
O talento não apareceu no sábado. Ele já estava disponível em 2004, e esteve disponível em cada um dos anos do intervalo.
Quem ganhou está na tela. Quem assina a produção, não.
Os seis foram premiados pelo que fizeram diante da câmera. Grace Passô foi premiada pela direção. Uma camada acima, a das empresas que levantam o dinheiro e assinam a obra, o quadro é outro.
Feito Pipa é uma produção da Deberton Filmes e da Biônica Filmes, em coprodução com a Warner Bros., distribuída no Brasil pela Paris Filmes.
Justino: Nos Bastidores do Reino é da Mercado Filmes, em coprodução com a Geração Entretenimento, distribuído pela Imovision.
Pele de Rinoceronte é da República Pureza Filmes, produtora do próprio diretor, Marcello Ludwig Maia, em coprodução com Telecine e Canal Brasil.
Nosso Segredo é produzido por Ricardo Alves Jr., em coprodução com Rachel Daisy Ellis, Julia Alves e a Globo Filmes.
São quatro filmes com protagonismo negro na tela, e nenhum deles depende de uma produtora surgida desse mesmo protagonismo para existir.
O que os números do setor mostram
A Agência Nacional do Cinema mediu exatamente essa distância. No estudo Diversidade de Gênero e Raça nos lançamentos brasileiros de 2016, que analisou 142 longas lançados comercialmente e 1.326 profissionais, pretos e pardos eram 13,3% do elenco e homens negros assinavam 2,1% das produções executivas.
Nenhuma mulher negra assinou direção, roteiro ou produção executiva de nenhum filme nacional naquele ano.
São dados de 2016, e é justo dizer que a década seguinte trouxe mudança na frente da câmera, como a própria noite de sábado mostra. O que não há é medição pública recente indicando que a distância entre os dois números tenha se fechado atrás dela.
A pergunta que fica
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata a representação como disputa de poder: quem decide qual imagem circula decide também a leitura que o grupo faz de si mesmo. Prêmio de atuação reconhece o trabalho de quem aparece. Não transfere a decisão sobre o que será filmado no ano seguinte.
A pergunta não é quando virá o próximo prêmio, nem se seis é muito. É quando artistas negros vão liderar as produções, e não apenas estrelá-las.
Fontes: Notícia Preta, 23 de agosto de 2026, reportagem de Layla Silva; Omelete, lista de vencedores do Festival de Gramado 2026; Jornal do Comércio, 23 de agosto de 2026. Fichas técnicas das quatro produções conferidas individualmente. Dados de produção executiva: Ancine, estudo Diversidade de Gênero e Raça nos lançamentos brasileiros de 2016, divulgado pela Agência Brasil em 25 de janeiro de 2018. Foto: Grace Passô, por Mariaduna, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.