O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres calcula risco assim: Ameaça x Exposição x Vulnerabilidade.
Ameaça é o evento, como a chuva forte. Exposição é quem está no caminho dele. Vulnerabilidade é a condição de quem não tem como se proteger nem se recuperar. Cada fator é medido com dado estatístico, mapeamento geográfico e índice socioeconômico.
A fórmula existe e é técnica. O que esta matéria conta é o trabalho de quem reconheceu essa mesma conta já escrita em verso.
Julia Neres, 27 anos, do Jardim São Luís
Ela é educomunicadora e se formou em Educomunicação na Universidade de São Paulo com a pesquisa Racismo Ambiental, Sobrevivendo no Inferno: leituras socioambientais a partir da obra dos Racionais MC's, concluída no último semestre de 2025.
A orientadora foi a professora Thaís Brianezi, que tinha dado a atividade em que a ideia nasceu.
A ficha caiu numa visita técnica
No segundo semestre de 2022, Julia visitou o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden. Foi lá que ela viu a fórmula do risco de desastre.
Quando vi a Fórmula do Risco de Desastres, especialmente o R, percebi que sua conexão com as letras dos Racionais MC's estava pronta. Julia Neres, à Agência Mural
As três músicas da pesquisa
Tempos Difíceis, de 1988. Homem na Estrada, de 1993. E o álbum Sobrevivendo no Inferno, de 1997.
Julia cruza as letras com enchente, deslizamento e onda de calor nas periferias para mostrar que risco de desastre não é só fenômeno natural: é também efeito de quem foi empurrado para o terreno mais inseguro da cidade.
A ordem importa e ela está respeitada aqui: a fórmula é do escritório da ONU e a pesquisa a reconhece nas letras. Ninguém está dizendo que os Racionais escreveram a fórmula.
O termo tem dono e tem data
Racismo ambiental foi cunhado pelo ativista afro-americano Benjamin Chavis, nos anos 1980. Ele nomeia a distribuição desigual do dano ambiental.
Populações negras, indígenas e periféricas costumam estar mais expostas e mais vulneráveis, por causa de desigualdades históricas que as empurraram para os lugares mais inseguros das cidades, sem infraestrutura urbana adequada.
200 exemplares impressos
Em 2026 a pesquisa virou livro, com versão física, digital e audiolivro. A publicação saiu por um edital do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais da Prefeitura de São Paulo, pelo Mirante Coletivo, que trabalha com design, literatura e educomunicação e que Julia coordena. As ilustrações do livro também são dela.
Os materiais foram distribuídos de graça em espaços como o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário e o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento de Parelheiros, onde a obra foi lançada.
O hip-hop passou a ser a linguagem pela qual consigo dialogar com diferentes públicos e transformar conceitos acadêmicos em discussões que fazem sentido para quem vive nas periferias. Julia Neres, à Agência Mural
A fórmula mede. A letra já descrevia.
Fonte: Agência Mural, reportagem de Daniel Santana, 18 de agosto de 2026. Foto: Mumu Silva, via Wikimedia Commons.