Júlia Zanatta, de tiara de flores e camiseta branca, canta ao microfone com o braço erguido diante de apoiadores, à noite, numa rua de Santa Catarina
Júlia Zanatta na comemoração da reeleição, na noite de 4 de outubro. Foto: Reprodução/Instagram @juliazanattasc.

A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) foi a candidata mais votada de Santa Catarina no domingo, 4 de outubro: 560.223 votos, 13,15% dos válidos, segundo o resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral. Em 2022, na primeira eleição, ela tinha recebido 111.588 votos. A segunda colocada no estado, Ana Paula Lima (PT), teve 201.377.

Na noite da apuração, Zanatta foi às ruas de Santa Catarina com um relho, o chicote de couro trançado, e publicou o vídeo no Instagram. Nas imagens, ela bate o chicote no chão diante de apoiadores e grita "É dado de relho!". Segundo o ND+, o vídeo passou de 900 mil visualizações.

O que ela diz

Ao Poder360, a deputada explicou por escrito: "Em Santa Catarina, usamos a expressão 'foi de relho' para falar de uma vitória expressiva. Foi uma brincadeira com essa expressão: apareci com o relho [chicote] na mão para comemorar o grande número de votos que recebemos. É uma referência à nossa linguagem regional e à força do resultado nas urnas".

Ao Estadão, em fala reproduzida pelo ND+, foi além: "Foi uma brincadeira, simbólica, mas como sempre já desvirtuaram tudo e ficam inventando narrativas, assim como fizeram com a minha tiara". A referência é à tiara de flores que ela usa no plenário da Câmara, que já tinha virado polêmica antes.

A expressão é regional. O objeto, não

No campo, o relho conduz o gado. Na história do Brasil, o chicote foi o instrumento do castigo de pessoas escravizadas, muitas vezes aplicado em praça pública, à vista de todos. O pintor Johann Moritz Rugendas, que percorreu o Brasil nos anos 1820, registrou uma dessas cenas na Praça de Santana, no Rio de Janeiro.

Gravura colorida de Rugendas mostra multidão numa praça do Rio de Janeiro em torno de um pelourinho onde um homem escravizado é castigado
"Castigo público na Praça de Santana", de Johann Moritz Rugendas, século 19. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A Revista Afirmativa, veículo de jornalismo negro, lembrou que o chicote de couro trançado é "símbolo histórico de tortura e violência contra as pessoas negras escravizadas no Brasil".

Nas reportagens publicadas até 6 de outubro, as críticas ao vídeo vieram de usuários das redes sociais. Nenhuma delas registra representação contra a deputada no Ministério Público ou no Conselho de Ética da Câmara.

Brincadeira para quem?

Zanatta escolheu o objeto e a palavra. A expressão pode ser regional, mas o chicote não pertence a uma região: ele está na memória de um país em que 55,5% da população se declara preta ou parda, segundo o Censo de 2022. Uma vitória nas urnas comemorada com o instrumento que marcou o corpo de gente escravizada diz muito sobre para quem a festa foi feita.

Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, resultado oficial da eleição para deputado federal em Santa Catarina, 4 de outubro de 2026. Poder360, 5 de outubro de 2026. ND+, 6 de outubro de 2026, com informações do Estadão. Revista Afirmativa, 6 de outubro de 2026. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo 2022.