A subtenente Juliana passou para a reserva depois de 31 anos de efetivo serviço na Polícia Militar de Minas Gerais. No vídeo de despedida que publicou nas próprias redes, disse que pessoas trans precisam apenas de oportunidade. Encerrou com a frase que resume o ofício: "Missão dada, missão cumprida".

Dedicou a conquista à mãe, uma mulher preta de 90 anos que trabalhou como empregada doméstica. Homenageou a própria ancestralidade e as mulheres trans e travestis mortas pela violência. Agradeceu à família, aos irmãos de farda e à corporação.

Segundo a própria subtenente, ela foi a primeira mulher trans a vestir a farda da PMMG. Não há nota oficial da corporação confirmando o qualificador, e o relato se apoia na declaração dela sobre a própria carreira.

O tamanho de 31 anos

Para medir o que significa chegar à reserva sendo uma mulher trans neste país, vale olhar o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a ANTRA, divulgado em janeiro de 2026 com os dados de 2025.

Foram 80 assassinatos de pessoas trans no Brasil em 2025. O número é 34% menor que os 122 registrados em 2024, e mesmo assim manteve o país, pelo décimo oitavo ano consecutivo, como o que mais mata pessoas trans no mundo.

A própria entidade alerta que a queda não significa menos violência. As tentativas de assassinato subiram 32% no mesmo período, chegando a 75 casos, e a subnotificação segue sendo a regra. Dos assassinatos consumados, 62,5% aconteceram em espaço público, concentrados na noite e na madrugada.

Onde as mortes acontecem

Minas Gerais e Ceará foram os estados que mais mataram pessoas trans em 2025, com oito casos cada um. Depois vieram Bahia e Pernambuco, com sete. Por região, o Nordeste concentrou 38 mortes, seguido pelo Sudeste, com 17, o Centro-Oeste, com 12, o Norte, com 7, e o Sul, com 6.

O perfil das vítimas, segundo a ANTRA, é majoritariamente jovem, preto e pobre. A entidade estima a expectativa de vida dessa população em torno de 35 anos.

Juliana serviu 31 anos, e serviu dentro de um dos dois estados que mais mataram. Na conta que este país faz para gente como ela, o tempo de farda dela é quase uma vida inteira.

Passar para a reserva é um evento administrativo banal na vida de qualquer militar. É exatamente por isso que este caso importa: a normalidade que a corporação oferece a milhares de pessoas todos os anos foi, para ela, uma exceção de três décadas.

Fontes: vídeo publicado por @juliana_plenitude (31 de agosto de 2026); Blog da Renata Pimenta (29 de agosto de 2026); Dossiê ANTRA 2026, com dados de 2025, via Agência Brasil, Brasil de Fato e Nexo Jornal.