Denegrindo Ela, quarto livro de Luana Génot, sai pela Astral Cultural e reúne 64 crônicas escritas ao longo de sete anos na revista Ela, do jornal O Globo. O título não é provocação gratuita: no dicionário, antes de significar manchar a reputação de alguém, denegrir quer dizer tornar escuro. É esse sentido que o livro resgata, e dessa vez como elogio.

A palavra e o que fizeram com ela

O verbo vem do latim denigrare. No dicionário Michaelis, denegrir aparece como variante de denigrir, formada de de mais negro mais ir, e o primeiro sentido registrado é ficar ou fazer ficar escuro. Manchar a reputação vem depois, marcado como sentido figurado.

Foi o figurado que virou ofensa corriqueira, a ponto de o sentido original sumir do uso. O livro faz o caminho de volta. "Denegrir pensamentos, para mim, é criar nuances. É olhar de novo para aquilo que parecia óbvio, questionar, deslocar, ressignificar", escreveu a autora ao anunciar o lançamento.

Em outro trecho, ela explica por que a palavra importa: "O negro nunca foi uma coisa só. Tem profundidade, tonalidades, contradições, beleza, sombra e luz."

Sete anos de crônica

As 64 crônicas saíram na revista Ela, onde Génot foi a primeira cronista negra, segundo o Mundo Negro. Os textos tratam de afeto, maternidade, carreira, identidade, medo, amor e pertencimento. Não são artigos sobre desigualdade racial escritos de fora: são a vida cotidiana narrada por quem a vive.

Na ficha do Fórum Econômico Mundial de 2023, Génot aparece como diretora-executiva do Instituto Identidades do Brasil. Antes deste livro, publicou Sim à Igualdade Racial (2019), finalista do Prêmio Jabuti, Mais Forte: Entre Lutas e Conquistas (2021) e um título infantil pela HarperKids, em 2022.

A linhagem: Neusa Santos Souza

Génot credita o movimento de ressignificação a quem veio antes dela, em especial à psiquiatra e psicanalista baiana Neusa Santos Souza, nascida em 1951, autora de Tornar-se negro, de 1983. O título do livro de Neusa e o título do livro de Luana dizem, em dois tempos e com quarenta e três anos de distância, a mesma coisa: tornar-se negro não é um destino imposto, é um processo assumido.

Onde e quando

O primeiro lançamento é nesta quinta-feira, 17 de setembro, na Livraria da Vila, em São Paulo. O segundo é em 24 de setembro, na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Fontes: Mundo Negro; dicionário Michaelis, verbetes denegrir e denigrir.