Pablo Marçal, candidato à Presidência pelo PRTB, disse que “se macumba funcionasse, a Bahia era Dubai”. A frase foi dita em entrevista ao canal BNTV e passou a circular no fim de semana. Na mesma conversa ele afirmou que “todo macumbeiro é um derrotado na vida” e que se trata de “gente invejosa e que não prospera”.
Quem levou o caso ao Ministério Público
Ivanir dos Santos protocolou uma representação no Ministério Público Eleitoral pedindo a abertura de procedimento para investigar as falas. Ele é babalaô, doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e candidato a deputado federal pelo PSB no Rio de Janeiro. Em 2008 fundou a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que organiza desde então a Marcha em Defesa da Liberdade Religiosa, na orla de Copacabana.
A peça sustenta que o conteúdo pode configurar discriminação, racismo religioso, discurso de ódio e propaganda eleitoral vedada, e registra que o vídeo passou de 350 mil visualizações no YouTube. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas levou o caso à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância do Rio de Janeiro.
Vale dizer o que ainda não aconteceu. Representação é pedido de investigação. Até a publicação desta matéria não havia procedimento aberto nem processo contra ele por essas falas.
O tamanho do problema
O Disque 100 registrou 2.472 denúncias de intolerância religiosa em 2024, contra 1.481 no ano anterior, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. O crescimento foi de 66,8% em um ano.
Em 1.842 dessas denúncias a religião da vítima não foi informada. Entre as 630 que informaram, umbanda e candomblé somam 268: umbanda com 151 e candomblé com 117. São mais de quatro em cada dez casos em que se sabe a religião.
A palavra que ele escolheu tem endereço
Gildásia dos Santos e Santos, a Mãe Gilda, era ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador. A Folha Universal, jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, estampou a foto dela numa capa com a chamada “Macumbeiros e charlatães lesam a vida e bolso de clientes”. O terreiro foi atacado. Ela morreu em 21 de janeiro de 2000, aos 64 anos.
Foi essa data que a Lei 11.635, de 2007, escolheu para o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O autor da proposta foi Daniel Almeida, deputado federal pelo PCdoB da Bahia, que nesta semana divulgou nota de repúdio à fala de Marçal. “Não podemos aceitar declarações que promovam intolerância e preconceito contra qualquer religião”, escreveu.
Marçal citou a Bahia pelo nome. A Bahia já tinha respondido em 2007, com uma lei escrita por causa de uma ialorixá de Salvador.
Fontes: Bahia Notícias, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Jornal Grande Bahia e Agência Brasil, entre 6 e 9 de setembro de 2026, e dados do Disque 100 divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em janeiro de 2025.