“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali.” A frase é do vereador do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante a sessão plenária de terça-feira, 1º de setembro.

Ele se referia a um protesto realizado naquela manhã, na entrada da Câmara Municipal do Recife.

Trinta pessoas na porta da Câmara

O ato reuniu cerca de 30 pessoas, com presença majoritária de organizações sociais e coletivos de mulheres negras. Estavam ali para denunciar episódios de racismo e misoginia contra a vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), única parlamentar negra da atual legislatura.

Jô, que também é candidata a deputada estadual, vem acusando Medina de perseguição há meses.

Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa Jô Cavalcanti, em pronunciamento nas redes sociais logo após a sessão

Não começou agora

A escalada tem menos de 15 dias. Medina classificou como “uma porcaria” o Projeto de Lei nº 147/2026, de autoria de Jô, que propunha instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha. Na mesma ocasião, chamou a entidade espiritual da Jurema Sagrada de “mestra dos cabarés”. O projeto foi rejeitado em plenário por 12 votos a sete.

Antes disso já havia o acúmulo. Segundo a Marco Zero, interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura, e vereadoras apontam parlamentares da extrema direita, com destaque para Medina, como responsáveis.

Quem foi punida

Depois de meses de denúncias sem que Medina tivesse recebido qualquer advertência da Câmara, presidida pelo PSB, assim como a Comissão de Ética da Casa, Jô terminou chamando o colega de “racistinha de merda” e de “fascistinha” durante a sessão de 17 de agosto. O episódio levou o vereador a entrar com uma representação contra ela na Comissão de Ética.

Em 20 de agosto, a subcomissão de Ética aplicou uma medida de censura verbal contra Jô. Vale registrar com precisão o que essa censura puniu, porque a proximidade das datas engana: ela não tratou da fala de 17 de agosto. A punição foi por palavras proferidas na tribuna em 3 de novembro de 2025, durante um debate sobre letalidade policial e direitos humanos, depois de uma operação de grande repercussão no Rio de Janeiro.

Na reunião da subcomissão, a defesa da parlamentar sustentou que a denúncia se baseou em uma leitura recortada do episódio, que ignorava o vídeo completo, as interrupções sofridas por ela e a celebração das mortes feita pela bancada bolsonarista durante o debate.

São dois processos distintos, e é justamente aí que está o ponto. Um deles chegou a uma punição. O outro segue sem desfecho. Medina não recebeu advertência nenhuma até agora.

O deboche na tribuna

Na mesma sessão de 1º de setembro, o vereador zombou da situação em tom de deboche, com a voz em falsete, dizendo que a colega se coloca como vítima desde que perdeu a votação do Dia Municipal da Mestra Ritinha. Também afirmou ter sabido na véspera que haveria manifestação contra ele por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e, nas palavras dele, todos os “mimimi” da esquerda.

O que acontece agora

O mandato de Jô entrou com representação contra Medina na Comissão de Ética da Câmara e também no Ministério Público de Pernambuco, por racismo e LGBTfobia. Ela anunciou na terça que representaria de novo, nas duas instâncias, por reiteração.

Procurada, a assessoria de imprensa de Medina não respondeu à reportagem até o fechamento da matéria. A Câmara do Recife, também questionada, respondeu por meio do presidente Romerinho Jatobá (PSB), com uma nota que reafirma compromisso com a garantia de direitos e diz que o respeito às diferenças deve nortear todos os pronunciamentos. A nota não informa se alguma medida será tomada.

Fonte: Marco Zero Conteúdo, reportagem de Raíssa Ebrahim, 1º de setembro de 2026.