No sábado, 29 de agosto de 2026, Mirtes Renata Santana colou grau em Direito no Recife. Subiu ao palco segurando um porta-retrato com a foto do filho, ao som de Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant. A mãe dela, Marta, a irmã Fabiana Patrícia e duas amigas acompanhavam da plateia. Imagens de Miguel foram exibidas no telão.
O trabalho de conclusão de curso, aprovado com nota 10, tratou de escravização moderna e das violações de direitos enfrentadas por trabalhadoras domésticas. A mesma categoria em que ela trabalhava no dia em que perdeu o filho.
Miguel Otávio Santana da Silva morreu em 2 de junho de 2020, aos cinco anos, após cair do nono andar de um edifício no Centro do Recife. Entre aquele dia e este sábado passaram seis anos. O que acontece com alguém nesse intervalo tem nome na cosmovisão bantu.
Quem é Nkosi
Nkosi, também grafado Roxi Mukumbe, é um nkisi. Nkisi é como se chamam as divindades do candomblé de linhagem bantu, de matriz Angola e Congo. Ele é senhor do ferro, da guerra e da abertura de caminhos, e guardião do terreiro. A palavra nkosi quer dizer leão em kikongo. Nas nações de matriz iorubá, corresponde a Ogum.
Nkosi é a divindade da forja, e forja não é lugar de descanso. É onde o ferro entra inteiro, apanha do fogo e do martelo, e sai com outra forma. Quem se recolhe depois da perda não está derrotado. Está sendo batido em outra forma.
Por que isto não se chama superação
Superação sugere que a dor ficou para trás e que no fim deu tudo certo. A forja não promete nada disso. O ferro não esquece o fogo, ele carrega a marca dele. Mirtes não superou Miguel. Foi forjada com ele dentro.
A diferença entre as duas palavras não é estética. Chamar de superação transfere para a mãe a tarefa de encerrar um assunto que o Estado não encerrou, e transforma em fim feliz o que continua sendo processo em andamento.
A linhagem já estava naquela casa
Marta Maria Santana, mãe de Mirtes e avó de Miguel, também trabalhou como empregada doméstica para a família Corte Real. Ela manteve contrato de trabalho doméstico com Sérgio Hacker Corte Real entre junho de 2014 e fevereiro de 2017. Três gerações de uma mesma família preta amarradas ao mesmo endereço.
Abrir estrada onde não havia
A outra função de Nkosi é abrir caminho. Mirtes entrou no Direito vinda de uma categoria que o próprio Direito brasileiro demorou décadas para reconhecer. A Consolidação das Leis do Trabalho, de 1943, deixou as trabalhadoras domésticas de fora. Foi preciso esperar até 2013, com a Emenda Constitucional 72, para que a categoria tivesse os mesmos direitos das demais, e até 2015, com a Lei Complementar 150, para que essa equiparação fosse regulamentada.
Quanto ao caso, Sari Corte Real foi condenada por abandono de incapaz com resultado morte. Em 21 de maio de 2026, a Seção Criminal do Tribunal de Justiça de Pernambuco negou o recurso da defesa, por seis votos a cinco, e manteve a pena de sete anos em regime inicial fechado. A defesa anunciou que pretende recorrer a instâncias superiores, e ela segue respondendo em liberdade.
Mirtes não se formou sozinha. Levou o filho no colo, a linhagem nas costas e a marca da forja nas mãos.
Fontes: Mundo Negro (31 de agosto de 2026); Agência Pública; Diário de Pernambuco e LeiaJá (decisão do TJPE, maio de 2026); Emenda Constitucional 72/2013 e Lei Complementar 150/2015. Nkosi e Roxi Mukumbe conferidos em referências de candomblé de nação Angola e Congo.