Onesimus era um homem africano que vivia em Boston no começo do século 18. Trouxe da África um conhecimento que a medicina europeia ainda não tinha: sabia como se proteger da varíola antes de pegar a doença. Quando a epidemia chegou à cidade, em 1721, foi esse método que reduziu a mortalidade a uma fração do que era.

Ele estava escravizado na casa de um pastor. Depois da epidemia comprou em parte a própria liberdade, casou e teve filhos em Boston. É quase tudo o que se sabe da vida dele.

De onde ele vinha

O pastor registrou que Onesimus era guaramantese. Historiadores leem a palavra como uma grafia de coromantee, o nome que os ingleses davam a gente do grupo akan, na região da atual Gana e da Costa do Marfim. Há uma corrente que situa a origem dele no norte da África, a partir de uma menção a Barbary nos papéis do período. Quem estuda o tráfico atlântico e a história africana costuma ficar com a leitura akan.

Quem foi Cotton Mather

O pastor era Cotton Mather, nascido em Boston em 1663 e morto na mesma cidade em 1728. Puritano, copastor da Old North Meeting House, foi eleito membro da Royal Society de Londres em 1713 e publicou perto de 400 obras. Defendeu publicamente os julgamentos das bruxas de Salem em 1693, sem ter tido papel oficial neles.

Mather tinha ao menos três pessoas escravizadas em casa, e Onesimus era uma delas. É pela pena dele que essa história chegou até aqui, e é isso que a torna uma história sobre crédito tanto quanto sobre medicina.

O que Onesimus contou

Perguntado se já tinha tido varíola, Onesimus respondeu que sim e não. Tinha passado por uma operação que lhe deu algo parecido com a doença e o protegeria para sempre. A prática, disse, era comum entre o povo dele. Mather escreveu isso numa carta de 1716 à Royal Society, falando do novo método usado por africanos e asiáticos contra a varíola.

O procedimento se chama inoculação, ou variolização: põe-se num corte de quem está saudável um pouco do material da ferida de um doente, para provocar uma versão branda da doença e criar defesa.

1721

A varíola chegou a Boston de navio e metade da cidade adoeceu, cerca de 11 mil pessoas. Mather defendeu o método, e quem colocou a mão foi o médico Zabdiel Boylston. Em 26 de junho ele inoculou o próprio filho, de seis anos, e dois escravizados da casa.

Em cinco meses Boylston inoculou 247 pessoas. Morreram seis, cerca de 2%. Entre quem pegou a doença naturalmente, a mortalidade ficou perto de 15%. Os números são do relato que o próprio Boylston publicou depois, e a folha de rosto do livro registra que a inoculação foi aplicada em todo tipo de pessoa, brancos, negros, de todas as idades.

A cidade reagiu

A resistência foi violenta. O médico William Douglass publicou panfletos contra, o conselho da cidade condenou a prática em agosto de 1721 e o New-England Courant nasceu naquele mesmo mês fazendo campanha contra a inoculação. Um crítico atacou Mather por pensar como negro. Alguém jogou uma bomba caseira na casa do pastor, com um bilhete de ameaça. Ela não explodiu.

Duas honestidades

Inoculação não é vacina. A vacina de Edward Jenner, feita com material de varíola bovina, só apareceria em 1796, e é outro procedimento.

E tudo o que se sabe de Onesimus chegou pela escrita de Mather, que era parte interessada na briga. A voz dele não sobreviveu. O método sobreviveu, e o crédito ficou com quem escreveu.

Fontes: College of Physicians of Philadelphia, Paul Revere House e Royal Society, a partir do relato de Zabdiel Boylston. Imagens: mapa de Boston de John Bonner (1722), retrato de Cotton Mather por Peter Pelham, folha de rosto do livro de Boylston e primeira edição do New-England Courant, via Wikimedia Commons.