No sábado, 22 de agosto, o Carnivore Grounds, em Nairóbi, recebeu mais de quatro mil pessoas para a Otamatsuri, a convenção anual de anime e mangá do Quênia. Foram nove horas, das dez da manhã às sete da noite, entre música, cosplay, videogame e cultura pop japonesa e coreana. É uma das maiores do gênero em todo o continente africano, e quem organiza é a produtora Movie Jabber.

A pergunta que quase todo brasileiro faria diante dessa cena é o que o Quênia tem a ver com anime. A resposta tem catorze anos de história.

Trinta pessoas a cada dois meses

Em 2012, Brian Khisa e Harto Muhato criaram o Anime Café, um encontro no estúdio Tsunami para quem gostava de anime em Nairóbi. Nas palavras de um dos fundadores, eram vinte ou trinta pessoas aparecendo a cada dois meses. A motivação que eles descrevem é simples e reconhecível: os fãs estavam isolados em pequenos círculos, e faltava um lugar onde pudessem celebrar juntos.

Em 2017 entrou Jotham Micah, cofundador da Movie Jabber, e os três resolveram tentar algo bem maior. A primeira Otamatsuri aconteceu em 2019, no Alchemist Bar, e levou cerca de trezentas pessoas.

Sete anos depois da estreia, são mais de quatro mil num sábado.

A fantasia sai da própria casa

O concurso de fantasias é o centro do evento, e as peças não vêm de loja. Saem de papelão ondulado recortado, canos de PVC, material reciclado e uma técnica de moldagem com areia quente. Armas, máscaras, armaduras e acessórios, tudo montado à mão.

A vencedora desta edição foi Yvonne Chockey, de 24 anos. Julius Mokaya, 34 anos, zelador de prédio, já tinha vencido duas vezes. A explicação dele para a escolha do material desarma qualquer leitura de improviso:

A mensagem da história é que o lixo e as coisas jogadas fora não são realmente ruins. Julius Mokaya, à Africanews

Não é gente sem dinheiro se virando com o que sobrou. É autoria com o material que os outros descartam, e quem faz diz isso com todas as letras.

E não é só consumo

No Artist Alley da convenção, ilustradores, artistas de mangá e designers quenianos venderam obras originais que misturam narrativa africana com estética japonesa. Muitos relataram ter esgotado pôsteres, bottons e produtos feitos à mão.

Fora da convenção, a cena também produz. O estúdio Fatboy Animations, de Nairóbi, assina o vídeo animado de Mwaki, faixa de Zerb com Sofiya Nzau que rodou o mundo cantada em kikuyu. O anúncio do vídeo saiu no perfil do próprio Zerb, creditando o estúdio queniano.

Por que isso importa aqui

A África chega ao noticiário brasileiro quase sempre pela tragédia. Fome, guerra, golpe, naufrágio. Quando a notícia é boa, ela raramente atravessa a barreira da tradução.

Quatro mil pessoas num sábado em Nairóbi, uma convenção que começou com trinta e uma cena que já desenha o próprio traço não são exceção nem curiosidade exótica. São o que acontece quando um lugar é tratado como lugar onde gente vive, e não como pauta de desgraça.

Você sabia? Agora sabe.

Fontes: Africanews, 24 de agosto de 2026, sobre a edição deste ano e a fala de Julius Mokaya; The Standard, do Quênia, sobre a origem da Otamatsuri, o Anime Café e a primeira edição de 2019; Nairobi Events Guide, para data, local e horário da edição de 2026. O crédito do vídeo de Mwaki ao estúdio Fatboy Animations foi divulgado pelo perfil do próprio Zerb. Fotos: @radarafrica.