Em 10 de julho de 2025, Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, foi morto dentro de uma casa em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, durante uma operação policial.
A câmera corporal de um dos policiais registrou a cena. As imagens mostram Igor com as mãos na cabeça quando os tiros foram disparados.
A juíza Luciana Menezes Scorza pronunciou quatro policiais militares da Rocam, do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, para julgamento por homicídio qualificado. Manteve as qualificadoras de motivo torpe e de recurso que dificultou a defesa da vítima.
Em 30 de julho de 2026, depois de três dias de julgamento, o Tribunal do Júri absolveu os dois cabos apontados como autores dos disparos. O Ministério Público de São Paulo e os advogados da família recorreram da decisão.
Igor deixou uma filha de três anos. O 16º BPM/M é o segundo batalhão mais letal do estado, atrás apenas da Rota.
E não foi por falta de prova
Esse é o ponto que costuma escapar quando um caso desses termina em absolvição.
Na época da morte, o porta-voz da Polícia Militar, coronel Emerson Massera, declarou publicamente que a conduta dos agentes tinha sido "uma ação ilegal, não legítima, que levou à prisão". Os dois policiais foram presos em flagrante. O então secretário de Segurança Pública do governo de São Paulo, Guilherme Derrite, pediu apuração rigorosa.
A própria corporação classificou a ação como ilegal, prendeu os envolvidos, e o governo mandou apurar. O júri absolveu mesmo assim.
Agora olhe para o Paraná
Um perfil chamado Militar do Paraná, com quase 23 mil seguidores no Instagram, publicava imagens de pessoas mortas, feridas e torturadas, associando o conteúdo à Polícia Militar do estado. Os seguidores eram direcionados para um grupo fechado no Telegram, onde o material sem censura era vendido por assinatura mensal de R$ 20, cobrada por Pix.
O grupo tinha mais de cem participantes, o que dava cerca de R$ 2 mil por mês.
O deputado estadual Renato Freitas denunciou o esquema em 22 de julho. O perfil saiu do ar. O caso foi encaminhado ao Ministério Público do Paraná, e o Gaeco abriu investigação sobre a comercialização das imagens, em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública.
Um esclarecimento necessário: a polícia identificou o responsável pela página como um homem de 22 anos que, segundo a Sesp, não é policial e não tem vínculo aparente com as forças de segurança. O que está sob investigação, em separado, são as próprias imagens de tortura atribuídas a policiais militares.
A pergunta que fica
No Paraná, um parlamentar denuncia e em poucos dias a página sai do ar, o Ministério Público é acionado e o Gaeco investiga.
Em São Paulo existe a gravação feita pela câmera do próprio policial, existe a decisão de uma juíza mandando quatro homens a júri por homicídio qualificado, e mesmo assim o júri absolve.
A diferença entre os dois casos não é a quantidade de prova. É o que cada um deles obriga a sociedade a encarar. Fechar uma página é um gesto de fácil consenso: ninguém defende publicamente a venda de vídeo de gente morrendo. Condenar policiais exige aceitar que um jovem negro rendido, com as mãos na cabeça, era uma vítima.
Amos Wilson escreveu sobre como a percepção social decide antecipadamente quem merece proteção e quem merece suspeita, muito antes de qualquer prova ser examinada. Em Violência Preta Contra Preto, ele trata dessa hierarquia silenciosa que atravessa instituições inteiras e chega até a sala do júri.
O júri viu a mesma imagem que você veria. E decidiu de outro jeito.
Fontes: Ponte Jornalismo, ICL Notícias, Metrópoles, Terra, Revista Fórum e Tribuna do Paraná, julho de 2025 a agosto de 2026.