Por que o Mensalão virou sinônimo de ódio e o escândalo do Banco Master não? O Mensalão marcou o PT como o rosto da corrupção no Brasil. Mas quando se contam, nome por nome, os deputados e senadores investigados nos três grandes escândalos com lista oficial de parlamentares, o partido que mais aparece não é o PT. É o PP. E ele aparece em todos os governos.

Antes de tudo, a regra que vale para cada número desta matéria: investigação não é condenação. Muitos dos nomes contados aqui foram absolvidos, tiveram o caso arquivado ou foram considerados sem provas pela CPMI. A contagem mede quem foi apontado, não quem foi condenado.

Banco Master, Petrolão, Mensalão: o Mensalão não foi o maior

Em 2005, no primeiro governo Lula, deputados recebiam dinheiro para votar com o governo, segundo o Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Ação Penal 470. O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu foi preso em 2013. Segundo o STF, o esquema desviou R$ 76,7 milhões do Banco do Brasil: R$ 73,8 milhões do fundo Visanet e R$ 2,9 milhões em bônus de volume.

É muito dinheiro, mas é pouco perto dos outros. O caso do Banco Master deixou um rombo de R$ 52 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos, segundo o Poder360. No balanço de 2014, a Petrobras reconheceu R$ 6,2 bilhões em perdas com propina. O Mensalão, com R$ 76,7 milhões, é o menor dos três. O peso dele veio do símbolo, não do valor.

Somando os três escândalos, o PP lidera

Juntamos as três listas oficiais de parlamentares investigados, sempre pelo partido da época do escândalo:

Mensalão (2005): 19 deputados apontados pelas CPMIs. PT 7, PL 4, PP 4, PTB 2.
Sanguessugas (2006): 57 parlamentares investigados na fraude na compra de ambulâncias, segundo a lista do Senado de 18 de julho de 2006. PP 13, PTB 13, PL 10, PMDB 5. O esquema veio à tona em 2006, no governo Lula, mas as fraudes vinham de anos anteriores.
Lava Jato (2015): 34 congressistas com inquérito aberto no STF. PP 21, PMDB 6, PT 5.

São 110 ocorrências e 106 pessoas diferentes: quatro nomes aparecem em dois escândalos e foram contados uma vez só. No total, o PP tem 36 investigados. Depois vêm PTB (16), PL (13), PMDB (12) e PT (11).

Outros recortes contam histórias diferentes, e por isso não entram na soma. Na lista da delação da Odebrecht, de 2017, que não é uma lista oficial do Congresso, o PT lidera com 15 nomes, à frente de PMDB e PSDB (10 cada) e do PP (7). Nos casos novos de corrupção entre 2024 e 2026, quem lidera é o PL, com 5 de 11.

Mudam os presidentes, o partido continua lá

O que chama a atenção no PP não é só o tamanho, é a constância. No governo Lula, teve 4 deputados no Mensalão e 13 parlamentares nos Sanguessugas. No governo Dilma, tinha 21 dos 34 alvos da Lava Jato no STF. No governo Bolsonaro, foi o partido que mais indicou emendas do orçamento secreto, segundo os documentos que o Senado entregou ao STF em maio de 2022.

Esses documentos são uma base parcial: cerca de R$ 11 bilhões, de 2020 e 2021, perto de um terço do total. Nela, o PP aparece com R$ 2 bilhões indicados, seguido de PL, PSD e União Brasil (R$ 1,6 bilhão cada) e Republicanos (R$ 1,4 bilhão), segundo levantamento da Agência O Globo e do Congresso em Foco.

O orçamento secreto

As emendas de relator, conhecidas como orçamento secreto, somaram cerca de R$ 53 bilhões entre 2020 e 2022 (R$ 20,1 bilhões, R$ 16,9 bilhões e R$ 16,5 bilhões), sem que o nome de quem indicava o dinheiro aparecesse. Em dezembro de 2022, o STF declarou o mecanismo inconstitucional, por 6 votos a 5, por falta de transparência, e mandou divulgar os gastos.

Os casos que vieram à tona mostram para onde parte do dinheiro foi. Em 2021, o jornal O Estado de S. Paulo revelou a compra de trator por R$ 359 mil, 259% acima do preço de referência, no que ficou conhecido como tratoraço. A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou sobrepreço, e o governo suspendeu e renegociou contratos. Em Pedreiras, no Maranhão, uma cidade de 39 mil habitantes registrou mais de 540 mil extrações dentárias em 2021, cerca de 14 por morador, para elevar os repasses do SUS, segundo a Polícia Federal e a CGU. A maior parte do dinheiro veio de emendas do orçamento secreto.

Mudou o governo, não o método. O Mensalão pagava para garantir voto. O orçamento secreto, segundo os críticos, distribuía emenda em troca de apoio.

Então por que o PT virou símbolo de corrupção e, mesmo com a direita fazendo muito pior, não está acontecendo o mesmo?

Porque o Mensalão teve rosto. Foi o primeiro escândalo a levar a cúpula de um governo à prisão, num julgamento transmitido ao vivo na TV. O orçamento secreto não tinha nem o nome de quem indicava o dinheiro. E quem negocia apoio com todo governo nunca vira o rosto do escândalo. Escândalo sem rosto não vira símbolo.

E o governo eleito com o discurso contra a corrupção foi justamente o do orçamento secreto. Em 2021, Jair Bolsonaro se filiou ao PL de Valdemar Costa Neto, condenado no Mensalão. Em março de 2026, a Primeira Turma do STF condenou por corrupção passiva três deputados do PL, Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, do Maranhão, e Bosco Costa, de Sergipe, por cobrar propina sobre emendas destinadas a São José de Ribamar (MA). A perda do mandato cabe à Câmara depois que o processo terminar.

O PT, por muito menos, foi execrado. O PP passa batido. E a direita continua com o mesmo discurso. Por que o Brasil não acorda? No domingo, 4 de outubro, você escolhe também quem ocupa as cadeiras do Congresso.

Método

A base reúne as listas oficiais de cada escândalo, com o partido de cada parlamentar na época. Partidos mudaram de nome: o PL de 2005 virou PR e depois PL de novo, o PMDB virou MDB, o PFL virou DEM e depois União Brasil. O desfecho de cada caso (condenação, absolvição, arquivamento) está registrado pessoa por pessoa, e os nomes não foram somados de um escândalo para outro.

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Fontes: Câmara dos Deputados (os 19 deputados do Mensalão; lista da Lava Jato de 2015); Senado Federal (os 57 investigados dos Sanguessugas, 18/07/2006); STF, Ação Penal 470, via Conjur; Petrobras, balanço de 2014; Poder360 (Banco Master); Correio Braziliense (valores do orçamento secreto por ano, 11/05/2022); Conjur e Migalhas (julgamento do STF, 19/12/2022); Agência O Globo via CartaCapital e Congresso em Foco (indicações por partido, maio de 2022); O Estado de S. Paulo via O Povo (tratoraço, 10/05/2021); Estado de Minas (CGU, 14/09/2021); Agência Brasil via Folha de Pernambuco (Pedreiras, 02/03/2023); Diário de Pernambuco e IstoÉ Dinheiro (condenação no STF, março de 2026); Poder360 (lista da Odebrecht); Congresso em Foco (casos recentes). Foto: José Cruz/Agência Brasil.