Contar quantos candidatos negros um partido lançou diz pouco. O que diz muito é para qual cargo ele os lançou. Dois partidos ilustram isso indo em direções opostas e chegando no mesmo lugar.
O PL encolheu, e encolheu mais em cima
Em 2022 o PL tinha 42,8% de candidatos negros. Em 2026 tem 37,1%, e 61,8% dos candidatos do partido são brancos. É um dos maiores partidos do país, com 1.635 candidaturas.
A queda de 5,7 pontos na média geral esconde o que aconteceu nos cargos de poder:
Governador: de 40% para 15,4%. Senador: de 47,1% para 27,3%. Primeiro suplente de senador: de 42,1% para 21,4%.
Nos cargos de base a retração foi bem menor: deputado federal caiu de 38,4% para 32,1%, e deputado estadual de 45,7% para 41,2%.
Há uma inversão nesses números que vale isolar. Em 2022, o bloco do Senado do PL era mais negro do que o partido inteiro: 47,1% contra uma média de 42,8%. Em 2026 isso virou ao contrário: 27,3% no Senado contra 37,1% de média. O topo da hierarquia trocou de direção.
O NOVO cresceu, e cresceu embaixo
O caminho do NOVO parece o oposto. Em 2022 o partido tinha 19,2% de candidatos negros. Em 2026 tem 42,6%. Mais que dobrou em quatro anos, com o partido saltando de 479 para 1.297 candidaturas.
Dentro da chapa do Senado do NOVO em 2026, porém, a distribuição é esta:
Senador: 26,7%. Primeiro suplente: 18,8%. Segundo suplente: 64,3%.
O segundo suplente só assume a cadeira se o senador e o primeiro suplente morrerem ou renunciarem. Na prática, é um mandato que não existe. E é o cargo mais negro da chapa.
Uma ressalva necessária: são números pequenos, 15 candidatos a senador, 16 a primeiro suplente e 14 a segundo suplente. Poucas pessoas mexem muito no percentual. Ainda assim, a ordem dos três degraus é difícil de explicar por acaso, e ela se repete no PL, que é um partido grande.
O que os dois têm em comum
Um partido diminuiu o número de candidatos negros. O outro aumentou. Nos dois, a posição com chance real de mandato ficou mais branca do que a média da legenda.
Isso importa porque a candidatura negra move dinheiro público. No mínimo 30% do Fundo Eleitoral tem que ir para candidaturas de pessoas negras, e até 2030 os votos dados a candidatos negros contam em dobro no cálculo da fatia do fundo que cabe a cada partido. Um partido pode cumprir o percentual, receber o recurso e ainda assim reservar as vagas que elegem para outro perfil.
Diversidade no número total não é diversidade no poder. Não basta contar os candidatos. É preciso contar os que têm chance real de mandato.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata de como o poder decide quais rostos circulam e em que posições, e de como a presença pode ser concedida no lugar exato em que ela não decide nada.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, arquivos abertos de candidaturas de 2022 e 2026, lidos do arquivo consolidado nacional, agrupados por partido e por cargo. Cotas do Fundo Eleitoral e contagem em dobro dos votos: legislação eleitoral vigente. Foto: Esplanada dos Ministérios, por Senado Federal, via Wikimedia Commons, CC BY 2.0.