Todo candidato à Presidência é obrigado a registrar um plano de governo na Justiça Eleitoral. São documentos públicos, que qualquer pessoa baixa. Ninguém é obrigado a seguir formato nenhum: os planos não precisam nem informar de onde virá o dinheiro das promessas.
Baixamos os treze planos registrados para 2026 e fomos contar neles cinco palavras: racismo, racial, negro, negra e quilombola.
Cinco dos doze candidatos que disputam a eleição não escrevem nenhuma dessas palavras uma única vez.
Pablo Marçal (PRTB) registrou proposta, mas ficou fora da conta: está inelegível até 2032 por decisão da Justiça Eleitoral.
O que a contagem diz e o que ela não diz
Antes dos números, a ressalva. Contar palavra não mede qualidade de política pública. Um plano pode citar muito e entregar pouco, e a ausência de um termo não significa ausência de proposta que afete aquele grupo. A própria Agência Mural, que faz esse levantamento desde 2018 com a palavra "periferia", faz questão de dizer isso.
O que a contagem mostra é outra coisa, e ela é escolha: quem decide nomear o problema e quem decide não nomear.
Os quatro planos, lado a lado
Entre os quatro candidatos mais comentados da disputa, a soma das cinco palavras ficou assim:
Ronaldo Caiado (PSD): 30 · Lula (PT): 24 · Flávio Bolsonaro (PL): 3 · Renan Santos (MISSÃO): 0
Os quatro documentos têm tamanho parecido, entre 21 mil e 42 mil palavras, então a diferença não vem de um ser mais longo que o outro.
Caiado é quem mais escreve
É o resultado que menos se espera olhando o espectro político. O plano do PSD dedica um capítulo inteiro ao assunto, o "Tema 22 · Racismo", e afirma que o governo "reconhecerá a maioria negra da população brasileira".
O diagnóstico nomeia causas: "legado histórico, desigualdade territorial, discriminação, escola de qualidade desigual, violência, baixa acumulação patrimonial e redes de oportunidade limitadas". Reconhece que "a juventude negra, especialmente masculina, sofre maior risco de morte violenta e recrutamento por facções" e que "mulheres negras enfrentam sobreposição de desigualdades de renda, cuidado, saúde materna e violência".
As propostas incluem publicar resultados de programas por raça, território e gênero, com planos de correção onde a diferença persistir; proteção da juventude negra contra a violência; saúde da população negra, com atenção a doença falciforme e mortalidade materna; e apuração de crimes raciais e de intolerância religiosa. O plano também fala em enfrentar o "racismo algorítmico".
Há um ponto que o plano deixa explícito quanto ao mecanismo: "programas universais terão metas de equidade; ações focalizadas serão usadas quando a desigualdade estiver comprovada, com transparência, avaliação e respeito à igualdade perante a lei". E diz que instituições públicas devem ter "seleção baseada em mérito com igualdade de oportunidades".
Em 42 mil palavras, o plano de Caiado não usa a palavra cota nem a expressão ação afirmativa uma única vez. Não se declara contra elas: simplesmente não trata do assunto.
Lula lista instrumentos com nome
O plano do PT parte de uma tese: não é possível superar as desigualdades brasileiras "sem enfrentar a questão racial como dimensão estruturante da sociedade".
É o único dos quatro que amarra raça a orçamento. Igualdade racial aparece como marcador do plano plurianual, ao lado de mulheres, meio ambiente e povos indígenas. Ou seja, é uma rubrica que se acompanha, não só um princípio.
E lista instrumentos existentes que promete continuar: a regulamentação do Estatuto da Igualdade Racial, as cotas no serviço público, as cotas no ensino superior com reserva para quilombolas, a política nacional de educação para as relações étnico-raciais, o campus quilombo dos Institutos Federais, a titulação de territórios quilombolas e o Periferia Viva.
Os problemas que o texto nomeia são específicos: mortalidade materna de mulheres negras, "que seguem as mais afetadas por óbitos evitáveis"; prevenção da violência com foco na juventude negra; disparidade salarial; e acesso ao território quilombola.
Sobre cotas, os dois planos escolhem lados opostos da mesma palavra: o de Lula a cita como política a manter e ampliar; o de Caiado não a escreve.
Flávio Bolsonaro não escreve a palavra
Em 23.665 palavras, o plano do PL tem zero ocorrências de racismo, racial, negro, periferia e favela.
O território existe no texto, com outro vocabulário. Aparece como "áreas degradadas" e como "comunidades". O plano promete "retomar as áreas hoje sob domínio de facções, devolvendo aos moradores a liberdade de ir e vir na própria comunidade", além de urbanização de encostas e regularização fundiária.
As três únicas marcas raciais do documento são menções a quilombolas, e todas servem ao mesmo fim: dar a eles, junto com os povos indígenas, "autonomia para decidir sobre atividades produtivas em suas terras". É enquadramento produtivo, não de reparação.
Renan Santos estuda a favela, e só ela
O plano do MISSÃO é o que mais se debruça sobre o território popular entre os quatro. São 13 menções a favela, com dado do Censo 2022: 12.348 favelas e comunidades urbanas em 656 municípios, abrigando 16,4 milhões de pessoas. Cita que Belém tem 57,2% dos moradores em favelas e que a Rocinha tem incidência de tuberculose cerca de dez vezes a média nacional.
É um capítulo com apuração. E não escreve a palavra negro, negra, racismo ou racial nenhuma vez.
O enquadramento aparece neste trecho: "Pior ainda, a favela contaminou nossa cultura. Ao longo do século XX, ela se converteu no estereótipo internacional do Brasil, a imagem que o mundo tem de nós. Nas últimas décadas, a mídia passou a vendê-la como algo exótico, glamouroso até, romantizando o crime, a promiscuidade e a degradação material e moral. A maioria dos moradores, brasileiros honestos, vive sob o jugo dessa cultura opressora e anseia por libertação."
O plano propõe "desfavelização" e redirecionar recursos do Minha Casa Minha Vida da "construção periférica" para a aquisição de imóveis em áreas já estruturadas. Diz que "acabar com a favela é precondição para que o Brasil deixe de ser um país dividido entre lei e ausência de lei, entre cidade e periferia".
O eixo não é esquerda contra direita
Caiado e Flávio Bolsonaro estão do mesmo lado do espectro político e nos extremos opostos da contagem: 30 e 3.
O que separa os quatro é onde cada um decide que o problema mora. Lula e Caiado o colocam na estrutura: desigualdade racial que se mede e se corrige, por caminhos diferentes. Um pela política de cotas e pelo orçamento carimbado, outro por metas de equidade em programas universais. Flávio Bolsonaro e Renan Santos o colocam no território. Um o chama de área degradada; o outro, de contaminação.
Nos dois casos o problema é o lugar. A cor de quem mora nele não entra na conta.
Como a contagem foi feita
Os treze planos foram baixados do repositório de propostas de governo do TSE. O texto de cada PDF foi extraído e as ocorrências das cinco palavras foram contadas com busca que ignora acento e maiúscula, incluindo variações de gênero e número.
Dois cuidados fizeram diferença. O PDF de uma das candidaturas entregava todo o texto duplicado, um artefato de camada sobreposta que dobrava qualquer contagem. Foi preciso remover os trechos repetidos antes de contar. E o resultado foi validado contra o levantamento que a Agência Mural publicou em 20 de agosto usando a palavra "periferia": os números de Lula, Flávio Bolsonaro e Hertz Dias bateram exatamente com os nossos.
Fontes: planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral e Censo 2022 do IBGE. Levantamento de referência: Agência Mural de Jornalismo das Periferias, 20 de agosto de 2026.