Na primeira parte desta série, contamos quantas vezes cada plano de governo registrado para a eleição de 2026 escreve as palavras racismo, negro e quilombola. Cinco dos doze candidatos que disputam o pleito não escrevem nenhuma delas.
Contagem, porém, não diz o que um plano propõe. Voltamos aos documentos e lemos as seções inteiras dos oito candidatos que ficaram de fora daquela comparação, para responder a uma pergunta diferente: o que cada um diz que vai fazer?
Pablo Marçal (PRTB) registrou proposta, mas segue fora da conta: está inelegível até 2032 por decisão da Justiça Eleitoral.
Hertz Dias (PSTU): treze medidas, com a expropriação no centro
O plano do PSTU, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, é o único dos doze com uma seção batizada de Programa para a Questão Negra. É também a lista mais itemizada da disputa. Nela cabem: titulação imediata dos territórios quilombolas, manutenção e ampliação de cotas nas universidades e no serviço público, desmilitarização da Polícia Militar e unificação das polícias, revogação da Lei Antidrogas, fim da privatização dos presídios e desencarceramento em massa.
Há medidas que quase ninguém mais escreve. O plano propõe multas de caráter confiscatório, ou mesmo expropriação, para empregadores que estimulam ou toleram racismo no local de trabalho. Defende o combate à intolerância contra religiões de matriz africana e afirma que "funk e batalhas de rima não são casos de polícia". Cobra a implementação efetiva da lei que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena.
O eixo, no entanto, é um só. Expropriação sem indenização das fazendas do agronegócio que atuam sobre territórios indígenas e quilombolas; que o Banco do Brasil destine verbas à agricultura familiar e quilombola "e não para o agronegócio escravista"; e expropriação de todos os bilionários herdeiros de famílias escravocratas.
O texto também faz uma crítica frontal à esquerda institucional. Diz que ela "reduz reparação a ações afirmativas ou assistencialismo, sem tocar na grande propriedade privada", e trata a Proposta de Emenda à Constituição 27/2024, apoiada por PT, PSOL e PCdoB e conhecida como PEC da Reparação, como desvio de foco. No mesmo trecho, aponta o Banco do Brasil como o maior financiador do tráfico de africanos escravizados na história do capitalismo.
Samara (UP): reparação que mexe no nome das ruas
O plano da UP, a Unidade Popular pelo Socialismo, traz o diagnóstico mais detalhado dos doze. Afirma que a população negra é 73% dos desempregados, 43% de quem não tem acesso a esgotamento sanitário e quase 90% dos mortos pela violência policial, e que 69,6% das pessoas encarceradas no país são negras, citando o Atlas da Violência 2025 e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.
As propostas que se seguem têm um traço distinto: são culturais e simbólicas, além de materiais. A primeira delas é reparação histórica e cultural, com a troca de nomes de ruas e monumentos que cultuam escravistas, ditadores e genocidas por nomes de "heróis explorados e oprimidos".
Vem depois a cobrança para que as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que asseguram o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, saiam do papel com concurso e financiamento para a disciplina na grade curricular.
E há uma proposta que quase nenhum outro plano faz de forma explícita: assegurar a liberdade religiosa com prioridade para o enfrentamento dos crimes de intolerância contra candomblé e umbanda. Fecham a lista o fim da violência de Estado que atinge desproporcionalmente a população negra, a ampliação de vagas reservadas no setor público e a titulação de terras quilombolas, com o pleno funcionamento da Fundação Cultural Palmares e do Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.
Edmilson Costa (PCB): acabar com o vestibular
Em 7.678 palavras, o menor plano entre os que propõem alguma coisa, o PCB concentra sua proposta racial na educação. Defende o fim do vestibular nas universidades federais e a ampliação das cotas: 54% para a população negra, "refletindo o censo do IBGE", mais 70% a 80% para estudantes de escola pública, além da universalização das cotas para a população trans.
Fora da educação, o plano fala em agir "com rigor no combate ao genocídio da população negra, pondo fim à política de guerra às drogas", com desmilitarização da segurança pública e unificação das polícias. Propõe ainda titulação imediata dos territórios quilombolas e uma reforma agrária popular que respeite povos originários e quilombolas.
Uma característica organiza o documento: as medidas raciais não têm capítulo próprio. Aparecem dentro dos programas de educação, de segurança e de reforma agrária, porque o plano trata o racismo como parte da estrutura de classe.
Augusto Cury (AVANTE): 34 desigualdades, nenhuma racial
O plano do AVANTE tem 41.979 palavras, quase o tamanho do maior da disputa. Escreve "desigualdade" 34 vezes e "vulnerabilidade" 26. Não escreve racismo, racial, negro, preto, pardo ou quilombola nenhuma vez.
O ponto não é a ausência da palavra, e sim o registro em que a desigualdade é tratada. É emocional, não estrutural nem programático: "A desigualdade não é apenas um fenômeno econômico. Ela é também emocional e psicológica"; "A pobreza extrema destrói autoestima. A exclusão social mutila sonhos". O texto chega a afirmar que "ignorar desigualdades estruturais produz arrogância social", e ainda assim não chega a nenhuma política pública para elas.
A palavra "escravo" aparece quatro vezes no documento, e nas quatro é metáfora: "escravos de slogans", "escravo dos próprios pensamentos", "emocionalmente escravizados" pela tecnologia. Os projetos que o plano lista pelo nome são os do próprio autor: um programa itinerante de saúde na estrada e academias de gestão da emoção.
Zema e Wilson Grassi: pobreza e território, sem raça
Dois planos tratam de temas vizinhos por outro caminho.
O de Romeu Zema (NOVO) enquadra pobreza como dependência. Cita cerca de 60 milhões de pessoas em situação de pobreza e mais de 9 milhões em extrema pobreza, e observa que 40% das famílias permanecem no Bolsa Família por mais de sete anos. A única menção a favela no documento serve para afirmar que empreender "é o maior sonho dos moradores de favelas para 2026". Sobre povos indígenas, propõe garantir "o pleno direito de exploração econômica de suas terras".
O de Wilson Grassi (DEMOCRATA) é tecnicamente detalhado em território. Critica a lógica de construir "novo conjunto na periferia da periferia, que sai barato na planilha e caro na vida das pessoas", defende requalificar área urbana com infraestrutura já instalada e cobra a Lei nº 11.888/2008, de assistência técnica pública gratuita para reforma e ampliação de moradia, que classifica como "nunca executada em escala".
Nos dois planos, pobreza e território existem com nome e proposta. Raça não aparece em nenhum dos dois.
Nenhum dos doze fixa meta de resultado
Procuramos, nos doze planos, qualquer número situado perto de um termo racial. Aparecem três tipos, e nenhum deles é promessa de chegada.
Os números da UP são de diagnóstico: descrevem o tamanho do problema. O 45,5% citado pelo PT, a proporção de estudantes de graduação que se declaram pretos, pardos ou indígenas, é resultado já alcançado pela política de cotas. O 54% do PCB é o único número prospectivo, e mede reserva de vaga, não resultado.
Nem o plano com o capítulo mais estruturado da disputa escapa disso. O de Ronaldo Caiado (PSD) promete publicar resultados por raça, território e gênero e gerar planos de correção onde a diferença persistir, mas não diz de quanto deve ser a redução nem em que prazo.
O que eles se propõem a resolver
Entre os cinco planos que trazem proposta concreta sobre raça (PT, PSD, PSTU, UP e PCB), quase tudo se concentra nas mesmas quatro frentes, à esquerda e à direita do espectro: educação, violência policial e prisão, território quilombola e liberdade religiosa.
A exceção é saúde. Mortalidade materna de mulheres negras e doença falciforme aparecem nos planos de Lula e de Caiado, e em nenhum dos outros dez. Nos programas de PSTU, UP e PCB, saúde comparece apenas em listas gerais de serviços básicos, sem recorte racial.
Fonte: planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral para a eleição de 2026. Levantamento de referência para a metodologia de contagem: Agência Mural de Jornalismo das Periferias, 20 de agosto de 2026.