Em 2025 a polícia matou 6.602 pessoas no Brasil. São 18 por dia. E 82% delas eram negras. O número está no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, publicado em julho, no meio da campanha eleitoral.
Baixamos os planos de governo dos quatro candidatos mais bem colocados na disputa presidencial, registrados na Justiça Eleitoral, e lemos os quatro documentos inteiros para responder a uma pergunta só: o que cada um propõe fazer sobre isso?
Esta é a terceira parte de uma série. Na primeira, contamos quantas vezes cada um dos doze planos escreve as palavras racismo, negro e quilombola. Na segunda, lemos o que os oito candidatos menores propõem sobre raça. Aqui a leitura é outra: não é contagem de termo, e sim o que os quatro principais dizem que vão fazer com a polícia.
Três propõem entrar. Um propõe controlar.
A favela é onde a letalidade policial acontece. Três dos quatro planos propõem ação policial intensificada exatamente ali, e nenhum dos três traz qualquer instrumento de controle sobre essa ação.
Não se trata de dizer que combater o crime em favela é errado. Trata-se de notar que os três planos que mais prometem entrar não escrevem uma linha sobre como sair sem matar. Quem propõe a operação não propõe o freio.
Flávio Bolsonaro (PL): retomar territórios, nada sobre controle
O plano promete recuperar os territórios dominados pelas facções, com consórcios para essa retomada. E afirma que bandido armado com fuzil será abatido pelas forças de segurança.
Em 23.296 palavras não há câmera corporal, corregedoria de polícia, ouvidoria nem qualquer mecanismo de controle da atividade policial. A expressão direitos humanos não aparece uma vez sequer no documento.
A única ocorrência da palavra câmera no plano é a da câmera de vigilância: um milhão delas espalhadas pelo país, com reconhecimento facial. Cabe aqui uma correção do nosso próprio trabalho. Antes de ler o PDF, trabalhando com resumo de imprensa, chegamos a afirmar que este plano também previa câmera corporal e controle interno e externo. Não prevê. A reportagem que lemos comparava dois planos, e a frase era do outro.
Romeu Zema (NOVO): Forças Armadas na retomada
Recuperar territórios dominados pelo crime é um dos cinco eixos centrais do plano. Quem entra são as Forças Armadas, atuando de forma integrada às polícias estaduais e à Polícia Federal. Domínio territorial é o modelo de operação mais letal que o país conhece.
Em 81 páginas, a única corregedoria proposta é a do Supremo Tribunal Federal, e não a de nenhuma polícia. O documento também fala em uso da Força, mas com maiúscula e como substantivo próprio: é a Força Nacional, e não o conceito regulado de uso da força que limita a ação policial.
Renan Santos (MISSÃO): um capítulo chamado desfavelização
O plano dedica um capítulo inteiro ao que chama de "A Desfavelização Física e Espiritual do País", com treze menções a favela. Propõe decretar estado de defesa para prender ou matar lideranças do crime organizado.
Em 21.462 palavras, nenhuma menção a câmera corporal, corregedoria, ouvidoria ou direitos humanos. O documento também propõe drones de patrulhamento autônomo e reconhecimento facial em tempo real, integrados a uma base de dados genéticos.
Lula (PT): os únicos instrumentos, todos como estímulo
É o único dos quatro com medidas capazes de conter a letalidade policial. O plano propõe ampliar os estímulos ao uso de câmeras corporais e definir padrão nacional de utilização, gestão e preservação das imagens. Prevê fortalecer o controle interno e externo da atividade policial, policiamento de proximidade nas comunidades, assegurar o uso legítimo da força e qualificar a investigação de homicídios. É também o único dos quatro que escreve direitos humanos, quatro vezes.
A fragilidade está na forma. Os dois instrumentos que mais importam entram como estímulo: "ampliaremos o programa de estímulos", "estimularemos o fortalecimento". Nenhum obriga estado nenhum a fazer nada.
E o plano não fixa meta de letalidade. A única vez que a palavra letalidade aparece no documento é em referência à violência doméstica.
Uma ressalva de leitura: as Forças Armadas citadas neste plano são as de fronteira amazônica e defesa nacional, e não de policiamento urbano. Não é a mesma proposta do emprego em retomada territorial.
O único instrumento com efeito já medido no Brasil
Estudo do Unicef com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública acompanhou a Polícia Militar de São Paulo entre 2019 e 2022. Nos 62 batalhões que adotaram câmera corporal, a letalidade caiu 76,2%. Nos 73 batalhões sem câmera, caiu 33,3%. Contra pessoas negras, a redução medida foi de cerca de 57%.
É o único instrumento citado nos quatro planos com efeito de redução já medido no país. E aparece em um plano só, na forma mais fraca possível.
O que amplia a exposição da população à polícia
Há propostas nos documentos que não matam por si, mas aumentam o número de contatos entre polícia e cidadão. O contato é onde a letalidade acontece.
Flávio Bolsonaro e Renan Santos propõem reconhecimento facial em massa. Pelo terceiro ano seguido, 90,5% das pessoas presas por essa tecnologia no Brasil são negras, segundo a Rede de Observatórios da Segurança. Em Feira de Santana, na Bahia, 1,3 milhão de rostos capturados geraram 903 alertas e 15 prisões: mais de 96% dos alertas não deram em nada.
O que não dá para colocar de nenhum dos dois lados
Por honestidade com a leitura, quatro propostas ficam fora dessa conta. Recriar o Ministério da Segurança Pública, o Sistema Único de Segurança Pública, a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança e o repasse de recursos a estados e municípios podem reduzir ou aumentar a letalidade, conforme o que se decidir coordenar e condicionar. Um ministério pode impor padrão de uso da força ou apenas distribuir verba. O mesmo repasse compra câmera corporal ou compra fuzil.
O ponto comum entre elas é o que mais chama atenção: são exatamente os instrumentos que permitiriam amarrar dinheiro federal a indicador de letalidade. Nenhum dos quatro planos faz essa amarração.
Antes de cobrar, vale saber quem manda na polícia
Pela Constituição, a polícia militar e a polícia civil são subordinadas aos governadores. Quem decide como a abordagem acontece no estado é o governo estadual, e não o federal. À União cabem a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as normas gerais de organização das polícias militares.
Por isso um presidente não pode simplesmente mandar um estado adotar câmera corporal. O limite aqui é de competência, e não apenas de vontade política.
Então o que dá para cobrar de um presidente
Três coisas estão ao alcance da Presidência sem mudar uma vírgula da Constituição: condicionar repasse de dinheiro a resultado, fixar padrão nacional de dado e de uso de câmera, e publicar estatística de letalidade por raça.
Nenhum dos quatro planos amarra repasse a indicador de letalidade. Nenhum fixa meta, prazo ou número a ser alcançado.
Plano que não nomeia a vítima não a protege
Os quatro documentos descem ao detalhe operacional. Sabem dizer quantas câmeras de vigilância, quais presídios, qual decreto, qual capítulo. Nenhum deles diz o que fará sobre os 82%.
Em nenhum dos quatro encontramos meta, prazo ou indicador para reduzir quantas pessoas a polícia mata, nem uma única menção à desproporção racial entre as vítimas.
Fonte: planos de governo de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO), registrados no Tribunal Superior Eleitoral para a eleição de 2026 e lidos na íntegra em 28 de agosto de 2026. Dados de letalidade: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. Câmeras corporais na Polícia Militar de São Paulo: Unicef e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Reconhecimento facial: Rede de Observatórios da Segurança.