Dois jovens negros foram abordados por três policiais militares numa noite na Marginal Pinheiros, em São Paulo. O motivo, segundo a equipe, era que caminhavam de forma suspeita. Veio revista, interrogatório e xingamento. Nada ilegal foi identificado com a dupla, e ainda assim a cena foi ao ar no YouTube. Uma apuração da Agência Pública em parceria com a plataforma Zeeng, publicada em 17 de setembro de 2026, mapeou os 15 candidatos que mais monetizaram vídeos de ocorrência policial neste ano.

“Tu é todo ladrãozão, né”

A frase é de um dos policiais, na abordagem gravada. Quem publicou o vídeo não foi nenhum deles: foi o Diretor Elias Junior, candidato a deputado estadual pelo MDB, que é diretor de cinema e não tem vínculo com a polícia. O título da publicação é “O tamanho do viaduto ficou pequeno quando viram a ROTA”.

O canal dele tem 1,3 milhão de inscritos e teria arrecadado mais de R$ 40,8 mil em monetização só neste ano, segundo a estimativa do levantamento. Na página inicial do perfil, Elias Junior aparece de colete à prova de balas e roupa camuflada; em alguns vídeos, usa boina e uniforme parecidos com os da Polícia Militar de São Paulo, sem ter ligação formal com a corporação. Ele não respondeu aos questionamentos da reportagem, e a PM não comentou o caso.

Quem lidera o levantamento

O primeiro colocado na estimativa de arrecadação é o deputado federal e candidato à reeleição delegado Palumbo, do Podemos de São Paulo, que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o início do ano, com mais de 26 milhões de visualizações no período analisado. Licenciado do cargo de policial civil, ele aparece nos vídeos participando de operações, caminhando ao lado dos agentes e, em alguns casos, conduzindo interrogatórios.

Procurado pela reportagem, Palumbo retirou do ar um vídeo de 20 de julho, que começava com policiais imobilizando um homem na rua, e não respondeu aos questionamentos.

O maior canal em inscritos é o 10º em visualizações

O canal com mais inscritos da lista é o do deputado federal delegado Da Cunha, do União Brasil de São Paulo, com 3,53 milhões. Em visualizações, porém, ele fica em décimo lugar: publicou 237 vídeos em quase oito meses e pode ter monetizado cerca de R$ 3,4 mil desde janeiro. Os dois números medem coisas diferentes, e o primeiro não puxa o segundo.

Também licenciado do cargo de delegado da Polícia Civil, Da Cunha participa de ocorrências e se apresenta como “deputado e delegado”. Num vídeo de 8 de julho, ele foi até o hospital onde estava internado um homem linchado por populares após uma tentativa de assalto em Osasco e, com o suspeito de cabeça enfaixada e deitado na maca, deu lição de moral e fez propaganda de um projeto de lei de autoria dele.

Em julho de 2021 ele chegou a ter distintivo e arma confiscados, depois de uma sindicância por simulação de operações policiais; os objetos foram devolvidos em 2023. Em 3 de setembro deste ano, o governador Tarcisio de Freitas anunciou a demissão dele do cargo de delegado, atendendo a uma recomendação feita pela Polícia Civil em 2022. No mesmo dia, a Justiça de São Paulo concedeu liminar, a pedido do deputado, impedindo que a decisão fosse formalizada.

As normas existem e quase ninguém fiscaliza

Dos 15 perfis analisados, 14 usam ocorrências policiais para divulgar a própria imagem, a maioria em condutas que não batem com as normas das polícias paulistas. Uma portaria de 2020 proíbe, na Polícia Civil de São Paulo, a publicação de fotos e vídeos com vítimas, suspeitos ou investigados, veda comportamento que busque “reconhecimento social” ou “promoção pessoal” e exige “decoro e discrição na linguagem”. A Polícia Militar tem norma parecida desde 2021.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou à reportagem que parlamentar licenciado não tem prerrogativa para usar distintivo nem para se apresentar como autoridade policial. “Não há, portanto, autorização para ações como as descritas pela reportagem”, diz a nota. A pasta não confirmou se os casos enviados serão apurados.

No país, quase 30% dos órgãos de polícia não têm norma específica sobre uso de redes sociais por agentes, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz. Para a diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo, o problema não é só a ausência de regra: “Falta em algumas normativas ter um fluxo claro de quem é o dono disso dentro das instituições, da função de fiscalizar. E isso torna muito mais difusa a implementação”.

Quem é posicionado como bandido

O pesquisador Dannilo Duarte, autor de Jornalismo Policial na Televisão Brasileira: Gênero e Modo de Endereçamento, descreve o que a câmera organiza antes mesmo de começar a gravar: “Há um posicionamento de quem é a vítima e de quem vai ser o bandido. Recorrentemente esse bandido vai ser preto ou pardo, vai estar em regiões periféricas”.

Segundo ele, esse formato alimenta a figura do justiceiro e a ideia de que a lei pode ser dispensada, e a conta não cai igual para todo mundo: “Mas você não verá isso acontecer num condomínio de classe média, mesmo que o infrator tenha cometido uma infração grave. Jovens brancos de classe média, média alta, não são espancados na praia ou nos becos”.

O que dizem os citados

O coronel Telhada, 14º no ranking, afirmou em nota que nenhuma das redes dele ganha dinheiro com monetização: “O YouTube com frequência manda mensagem para monetizarmos, mas nunca concordamos e nem aceitamos”. A capitã Rebeca, em 12º, respondeu que não monetiza os vídeos, e não comentou as críticas de espetacularização. O deputado federal sargento Fahur, 6º colocado, disse que a gestão do canal é feita por uma empresa e que “os valores obtidos com monetização não são suficientes sequer para custear integralmente a operação”. Palumbo, Da Cunha e Elias Junior não responderam.

Como os valores foram calculados

A reportagem partiu dos 100 perfis com mais inscritos no YouTube e cruzou a lista com a base de candidatos do Tribunal Superior Eleitoral. Para cada um dos 15 canais, somou as visualizações de vídeos publicados entre 1º de janeiro e 25 de agosto de 2026, separando shorts e vídeos longos, e aplicou um modelo de receita que combina a divisão oficial do YouTube com o criador, de 55%, com estimativas de custo por mil impressões e receita por mil visualizações.

Eduardo Prange, pesquisador e CEO da Zeeng, classifica os valores como estimativa “moderada”. São projeções por visualização, não faturamento declarado: o dado exato só existe no YouTube Analytics de cada canal, a que apenas o titular tem acesso. As contas também deixam de fora outras redes e patrocínios negociados direto com os candidatos, o que empurra os números reais para cima, não para baixo.

Fonte: Agência Pública, reportagem de Dyepeson Martins, com Matheus Pigozzi e José Cícero, edição de Ana Magalhães, 17 de setembro de 2026. A reportagem não informa a cor ou a raça de nenhum dos 15 candidatos, e esta matéria não a afirma. A menção à raça aparece onde a fonte a registra: nos jovens abordados e na análise do pesquisador sobre quem é posicionado como suspeito.