Mensagens de WhatsApp, fotos e notas recuperadas do celular de Priscila Freitas de Melo mostram como a família do empresário Rodrigo Martins de Mello, o Rodrigo Cataratas, recebeu Alexandre Ramagem na Flórida logo depois da fuga do Brasil. Cataratas, então marido de Priscila, foi condenado em fevereiro a 16 anos e 7 meses de prisão por liderar o garimpo ilegal de ouro e cassiterita na Terra Indígena Yanomami. A reportagem é da Agência Pública, publicada nesta terça (29), com apoio do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).

A fuga

Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo Bolsonaro, saiu do Brasil por Bonfim, em Roraima, rumo a Lethem, na Guiana, em 9 de setembro de 2025. Estava proibido de deixar o país desde junho daquele ano, por medida cautelar do ministro Alexandre de Moraes, que também mandou recolher os passaportes dele. Da Guiana, seguiu de avião para os Estados Unidos, onde teria chegado no dia 11, segundo a Polícia Federal (PF).

Nesse mesmo 11 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado. Ramagem perdeu o mandato de deputado federal (PL-RR) e o cargo na PF. A prisão preventiva foi decretada em 21 de novembro, e ele segue foragido.

"Como se tivesse alugado o quarto"

Em 15 de setembro de 2025, Celso Rodrigo de Mello, filho de Cataratas, escreveu a Priscila pedindo uma conta do apartamento no nome do pai: "Vamos tentar tirar a driver license do Alexandre amanhã no DMV". Em seguida: "Fiz o contrato aqui também para ele levar como se tivesse alugado o quarto". DMV é o departamento de trânsito da Flórida, e driver license é a carteira de motorista.

Para a PF, Cataratas, Priscila e Celso tiveram "papel de protagonismo na manutenção clandestina de Alexandre Ramagem em Miami", viabilizando a moradia e ajudando o foragido "a ludibriar as autoridades americanas com documentos falsos" para conseguir a carteira.

Três meses no Sole Mia

Ramagem ficou três meses no Sole Mia, condomínio de luxo no norte de Miami onde a família de Cataratas tem um apartamento de 96 metros quadrados, com dois quartos e varanda para um lago artificial. Segundo a Pública, o aluguel de um apartamento assim começa em cerca de R$ 20 mil por mês. A reportagem não diz quanto, ou se, Ramagem pagou.

Em 17 de setembro, Priscila pediu à administração do condomínio um novo cartão de acesso ao estacionamento e autorizou "um amigo nosso, Alexandre Rodrigues Ramagem" a retirá-lo. Em 17 de novembro, a mulher de Ramagem, Rebeca, e as filhas chegaram a Miami e também ficaram no apartamento. Rebeca Ramagem é hoje candidata a deputada federal pelo PL no Rio de Janeiro.

A carta de novembro

Em 19 de novembro, Ramagem e Rebeca foram fotografados caminhando no condomínio. Dois dias depois, uma nota no celular de Priscila registra uma carta, assinada por Rodrigo Martins de Mello, pedindo ao condomínio que notificasse Ramagem a deixar o imóvel: "eu descobri através da imprensa que este indivíduo não tem permissão de deixar o Brasil". Para a PF, o texto foi escrito como precaução, depois que a imprensa ligou o apartamento à fuga. A família de Ramagem saiu do Sole Mia no fim de novembro.

A foto na Guiana

Depois da prisão de Celso, em Manaus, em 15 de dezembro de 2025, Ramagem disse num vídeo que o rapaz "só me conheceu quando eu já estava nos EUA". Uma foto que, segundo os investigadores, estava no celular de Priscila mostra Ramagem sorridente num prédio público da Guiana em 10 de setembro de 2025, na véspera do voo. Segundo a PF, quem tirou a foto foi Rodrigo Cataratas.

Cataratas e Ramagem já tinham aparecido juntos em público: em 31 de março de 2025, o empresário postou uma foto do encontro em Boa Vista. Em novembro, Cataratas negou ter ajudado na fuga e escreveu que, quando Ramagem esteve com ele, "não tinha qualquer condenação ou impedimento legal que o proibisse de sair do Brasil". A proibição de deixar o país valia desde junho de 2025.

Quem é Rodrigo Cataratas

Cataratas foi condenado por liderar uma organização criminosa de mineração ilegal dentro da Terra Indígena Yanomami, com uma frota de helicópteros adulterados que levava gente, combustível e minério. Celso foi condenado a 8 anos por atuar na gestão financeira e na logística do grupo. Os dois recorrem em liberdade. Celso usa tornozeleira eletrônica. Cataratas, Celso e Priscila também são investigados no STF pela ajuda à fuga, e o tribunal diz que o caso está sob sigilo.

"O garimpo geralmente é uma organização criminosa que, em regra, trabalha com os familiares", disse à Pública o procurador Alisson Marugal, do Ministério Público Federal em Roraima. O MPF investiga um possível genocídio do povo Yanomami ligado à invasão do território pelo garimpo entre 2021 e 2022.

O que há de novo

A ligação entre o apartamento e a fuga já tinha aparecido na imprensa no fim de 2025. O que a Pública traz agora são as mensagens do celular de Priscila, a foto na Guiana e a nota com a carta de novembro. A reportagem não encontrou Ramagem, Cataratas nem Celso para comentar.

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Fonte: Agência Pública, com apoio do ICIJ (29 de setembro de 2026). Foto: Câmara dos Deputados/Wikimedia Commons.