Um vídeo gravado em maio de 2025 num hospital de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, mostra a governadora Raquel Lyra (PSD) respondendo a uma funcionária que comenta o caso de uma paciente grávida de novo, que já tinha sete filhos. "Aí, a gente bota na fila da laqueadura", diz a governadora. E em seguida: "Mas faz sem ela saber! Vai!" O vídeo veio a público no domingo (20), pelo Metrópoles.

O que diz o vídeo

A conversa acontece no Hospital Regional Dom Moura. A fala foi transcrita da mesma forma pelo Metrópoles, que divulgou o vídeo, pelo Brasil de Fato e pela Agência Pública, e a própria governadora confirmou a gravação ao se desculpar. O vídeo mostra a fala, não um procedimento: não há registro de que alguma laqueadura tenha sido feita.

Nas primeiras versões que circularam, a frase foi descrita como dirigida a "mulheres em situação de rua". Nenhuma das fontes que transcreveram o vídeo diz isso. A fala é sobre uma paciente.

O que diz a lei

A Lei do Planejamento Familiar, de 1996, só permite a laqueadura com a vontade da mulher manifestada por escrito e assinada. Sem esse consentimento, a esterilização é crime, com pena de 2 a 8 anos de prisão.

Um chão conhecido

A frase não cai no vazio. Entre 1991 e 1993, uma comissão parlamentar de inquérito do Congresso investigou a esterilização em massa de mulheres no Brasil. Como lembra a Agência Pública, a prática se concentrava em regiões pobres e de maioria negra.

E a desigualdade no atendimento às mulheres grávidas continua medida. Mulheres pretas morrem na gravidez e no parto duas vezes mais que brancas e pardas: 125,8 mortes por 100 mil nascidos vivos, contra 64, segundo estudo da Unicamp publicado na Revista de Saúde Pública com dados do SUS de 2017 a 2022. A pesquisa "A cor da dor", da Fiocruz, mostrou que elas recebem menos anestesia local na episiotomia e ficam mais vezes sem acompanhante no parto.

A raça da paciente citada no vídeo não foi informada, e esta reportagem não a afirma. Os números acima descrevem o que acontece com as mulheres pretas no sistema de saúde, não o caso de Garanhuns.

O pedido de desculpas

Na segunda (21), numa sabatina do Sindhospe no Recife, a governadora, candidata à reeleição, pediu desculpas: "Fiz uma fala equivocada, errada." Houve protesto no mesmo dia.

O pedido veio depois que o vídeo pegou mal. Reconhecer o erro de uma frase não diz o que o governo do estado faz para proteger as mulheres mais vulneráveis da violência obstétrica. É isso que se cobra de quem governa: política, não arrependimento.

No fundo, a frase trata de quem decide sobre o corpo e a vida de uma mulher. Amos Wilson escreveu sobre isso: um povo só se protege quando decide por si. Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial está no catálogo da Editora Poder Afrikano.

Fontes: Metrópoles (coluna de Andreza Matais, 20 de setembro de 2026), que divulgou o vídeo; Brasil de Fato (21 de setembro de 2026); Agência Pública (Andrea DiP, 23 de setembro de 2026); Diario de Pernambuco (21 de setembro de 2026), com o pedido de desculpas; Revista de Saúde Pública (Unicamp, junho de 2024, via IBDFAM); Cadernos de Saúde Pública, "A cor da dor" (Leal e outros, 2017, Fiocruz). Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados, via Wikimedia Commons.